Os melhores do carnaval O Carnaval chega ao fim com pelo menos uma revelação: Carla Perez tem aquilo frio. A moça botou o pé – eu disse pé?, só porque tem crianças presentes – em um dos carros da Mangueira e a verde e rosa sofreu um desastre. Já tem despacho no morro da Mangueira pedindo para a moça optar pela Beija-Flor no próximo carnaval. Se ainda existir Carla Perez na mídia, é claro.   Mas tem outras revelações. Por exemplo, o pessoal que costuma fazer ''vigília'' religiosa no período do carnaval é mais barulhento que as escolas. Experimentei isso nos ouvidos esse ano.   Eu, que gosto de ficar longe de qualquer folia também durante o carnaval, no ano que vem vou descansar – e trabalhar, pois sou dos que não param por causa de confete e serpentina – em uma casa ao lado da quadra de alguma escola de samba.   Mas não podemos perder a oportunidade de causar briga na platéia, julgando isso que está aí e premiando os melhores do Sambódromo político brasileiro. É um pessoal bem ruim da cabeça e pior ainda dos pés, mas que fazem a gente pular miudinho durante o ano inteiro. Vamos aos prêmios. Jota OS MELHORES Bateria Essa o ACM leva. Bate bem o ''Toninho Malvadeza'', até nos seus. Samba-enredo Rafael Greca – agora ao azeite português – divide o prêmio com seus parceiros Chitãozinho e Xororó, por aquela preciosidade intitulada ''Meu País é uma Arena Gigantesca'', obra-prima incompreendida apenas devido a um detalhe: o ''Arena'', do título e refrão. Se mudassem para ''PFL'', o partido do ministro frito brigaria até o fim em nome da arte. Harmonia O velho PMDB merece o galardão. Tem xingamentos, cara emburrada, rasteira, mãe-no-meio; mas é tudo para a perfeita harmonia com o poderoso do momento. Evolução Para o PT em homenagem ao seu aniversário: vinte aninhos. E que evolução! Há certos buracos e correria no andamento do desfile democrático, companheiro, mas a gente ainda chega lá no palácio do Planalto. Agora só falta adquirir a identidade. Aliás, já passou da idade. Enredo Quem mais poderia ser? Ele, o bipresidente Fernando Henrique Cardoso. Emprego, educação, saúde, segurança e agricultura; e com este magnífico enredo o marido da Dona Ruth enredou o país duas vezes. Alegoria e adereços O ex-ministro das Comunicações, Mendonça de Barros, merece esta por seu ousado plano de privatizações. Que alegorias! Que adereço! E que preços! Mestre-sala e porta-bandeira Não tem discussão: Jáder Barbalho e ACM são os escolhidos. Os bate-bocas e safanões atrapalham um pouco. Conjunto O PFL merece. Mesmo com assassinos de motosserra, narcodeputados e falta de decoro; ou por isso mesmo. Conjunto perfeito, desde os tempos da ditadura militar. E sempre conjugando com o poder, é claro. Fantasias O ministro José Serra é o eleito. E não é só pela fantasia de ministro da Saúde, não. É também pela fantasia de ser presidente. Comissão de frente Sem piadinhas na platéia, por favor. Michel Temer, Aécio Neves, Pimenta da Veiga, ACM, Inocêncio Alves, Aloysio Nunes, Raimundo Padilha, Geddel Vieira e mais uns e outros. Haja comissão, minha gente! UMAS E OUTRAS DO JAGUAR O cartunista Jaguar está escrevendo um livro. Coisa de especialista, com garantia de qualidade: o criador de ''O Pasquim'', que desenha e escreve bem, vai falar sobre botecos. Em ''O ''Pasquim'', ele mantinha uma coluna – instável como conversa de bêbado – com uma sigla interessante, ''B.I.P.'' (Busca Insaciável do Prazer). Nela, Jaguar dava dicas de bons lugares para se beber e comer no Rio.   Jaguar tem um desses talentos que faz falta em nossa literatura: a de contador de histórias. Agora vai botar tudo em um livro. Mas ele não agüenta e vai contando em sua coluna que sai às quarta-feiras no diário carioca ''O Dia''. Abrideiras ótimas, não saio da mesa enquanto o livro com todas as histórias não sair.   O Jaguar é um animal – ou um ''bípede implume'' como disse aquele menino amigo do Sócrates, o Platão – em extinção. Criativo, bom caráter, generoso; e ressalto este último adjetivo: onde foi parar a generosidade, profissional, artística e humana, deste país?   Já tive o prazer de beber com o Jaguar e conferir sua lendária capacidade de ingerir a tal água que passarinho não bebe. Foi em um inusitado ''Festival de Quadrinhos'' numa cidade do interior de São Paulo. No afã de impressionar o mestre – eu era então, o que se chamava, um ''enfant terrible'', agora estou mais para ''ancien terrible'' – aprontei naquela noite.   Espero que o Jaguar não coloque nada no livro. Mas para isso conto com outro de seus traços, também lendário: a persistente amnésia. NOTAS D'ALÉM MAR   O bipresidente Fernando Henrique Cardoso não consegue disfarçar o desconforto: a vaidade se ressente muito com esta viagem à Portugal. Terá que deixar de lado a costumeira exibição de poliglotismo: os discursos serão todos em português.   Mas FHC não perde oportunidade de falar com um leve sotaque português. E de aplaudir: clap, clap, clap!   Sofisticação admirável do governo tucano; FHC agora está levando ministro para fritar no exterior. Com azeite português.   Sabem a última do português? Ouvir discursos do presidente brasileiro. E acreditar!   Ninguém me ouve, então perdem as melhores idéias. Para comemorar com o devido júbilo os tais 500 anos do descobrimento, da comitiva de FHC devia fazer parte um silvícola brasileiro. À moda dos antigos navegantes, que levavam alguns indígenas para exibir na corte.   Teremos espelhinhos como compensação desta viagem? Acho bom, não podemos ficar no prejuízo.   A relação com o colonizador português é difícil para nós. Mesmo que surgisse na nação brasileira – repentinamente e, claro, sem querer – resquícios de amor-próprio, seria difícil uma cobrança histórica. Portugal não tem nada mais para devolver. 1 Sinto que a coisa vai. O Rio de Janeiro está um caos. Espaços urbanos totalmente inviáveis para a vida humana: violência do tráfico e da polícia, insalubridade, problemas graves no meio ambiente. Neste carnaval a Lagoa Rodrigo de Freitas apareceu toda podre com toneladas e toneladas de peixes mortos. Especialistas dizem que a vida nas águas da Lagoa está praticamente dizimada. 2 A competição Rio-São Paulo também está pau-a-pau nesta área. Díficil saber quem ganha, os dois lados fazem muito bem o pior. Destruída após o furacão malufista, São Paulo arrepia até o santo que lhe deu nome. Chacinas, enchentes, corrupção... e por aí vai, afinal São Paulo não pode parar. 3 Mas mesmo com tudo isso, sinto que agora a coisa vai. Esses problemas só podem resolvidos à partir de uma discussão global de suas causas. E o prefeito de São Paulo, Celso Pitta, mais o do Rio, Celso Conde, parece que acordaram para isso. Já estão discutindo a qualidade do carnaval paulistano.

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