Jota
Ilustração de James Thurber para Para Que Serve o Sexo.
Thurber, com seu desenho caligráfico e seu humor
sofisticado, é um dos modernizadores do cartum americano
HUMORE SEXO
FEITOA DOIS
Não confunda o livro Para Que Serve o Sexo, de James Thurber e E. B. White, com estes livros de auto-ajuda que lotam as prateleiras das livrarias e fazem tilintar os caixas. Alguns leitores americanos viveram a mesma situação em 1929, quando o livro foi lançado nos Estados Unidos. E não foi nada engraçado para eles. E. B. White contava, 20 anos depois na introdução de uma das edições do livro, que eles perguntavam: O que é isso tudo? Não entendemos o que querem dizer. Esses leitores, escreveu E. B. White, não se davam conta de que o livro era uma paródia.
A vida sexual desses leitores certamente deve ter melhorado. Mais do que se tivessem seguido os conselhos dos livros sobre sexo e matrimônio da década de 20. Foram essas publicações, tão comuns na época quanto os livros de auto-ajuda hoje em dia, que inspiraram os autores a escrever Para Que Serve o Sexo?.
Não pensem os leitores e as leitoras que um livro de humor sobre sexo escrito em 1929 já perdeu a validade. Sequer imaginem que poderão estar perdendo não somente a graça, mas também os 12 reais do preço do livro. Estarão tão errados quanto um livro sobre sexo da década de 20. Boas idéias, ao contrário dos vinhos bons, não envelhecem. Os especialistas que escreviam sobre sexo e matrimônio na década de 20 é que ficaram para trás. A visão dos dois autores sobre o assunto, extremamente avançada para os anos 20, mantém-se atual. Como se tivesse saído das teclas da máquina de escrever há pouco. No passado ou agora, o único problema sexual realmente grave é ficar sem sexo. E o ponto de vista sobre o assunto depende sempre, ontem ou hoje, da posição.
E a posição dos dois autores sobre o assunto resistiu ao tempo. O livro é engraçadíssimo. E. B. White (1899-1985) e James Thurber (1894-1961) são de uma safra de humoristas da melhor qualidade. Fazem um humor inteligente e bem escrito. Não foi à toa que os dois influenciaram várias gerações de escritores e dramaturgos americanos, entre eles o genial e obcecado Woddy Allen. White e Thurber escreveram durante anos na famosa revista americana The New Yorker, que influenciou jornalistas e intelectuais pelo mundo todo. E além de grande escritor, James Thurber, cujo centenário é comemorado este ano, foi um desenhista que modernizou o humor americano. Seu traço solto, caligráfico, é audacioso até hoje. Imaginem as reações na década de 20. E. B. White conta que, quando mostraram as ilustrações do livro para a editora Harper, o editor perguntou: Estes são os esboços dos desenhos definitivos, não é? Não era. O desenho de humor americano - rebuscado, naturalista, acadêmico - começava a ser modernizado ali. O humor de Thurber, com suas cenas absurdas sobre os relacionamentos humanos, marcou profundamente o cartum americano. E seu traço permanece moderno até hoje.
Jota





