Jota
Não, caro leitor e cara leitora, vocês não se enganaram de página e caíram de supetão na página de Internacional. O mapa aí ao lado é mais uma contribuição nossa para o entendimento da globalização e seus fantásticos resultados em nossas vida. Sei, você já deve ter lido isso em vários folhetos e propagandas tentando lhe impingir um badulaque - adquira o fantástico cortador de unhas, imprescindível nesta era de globalização. Mas a conversa aqui é séria, coisa de primeiro mundo.
Com o advento da globalização e suas conseqüências políticas e econômicas é mais que necessário situar-se com precisão no mundo em que vivemos. Hoje, um chinês espirra em Xangai e o seu computador pega o vírus aqui. Um jovem cheira uma carreira de cocaína na Suiça e a carreira de um deputado decola no Brasil. Um filipino bate o cartão e você recebe o bilhete azul. É fogo, torcida brasileira!
Quem está sempre ao lado do Brasil em estatísticas e relatórios que surgem mundo afora é a Zâmbia, pequeno país africano que é a nossa cara quando se trata de comparar números; posições em mortalidade infantil, educação e outras prosaicas situações é conosco mesmo, dá sempre Brasil e Zâmbia. Às vezes acima, noutras um pouco abaixo, estamos sempre lá, pau a pau com eles, competindo de igual para a igual, adversários sem trégua. É a nossa Argentina nos campeonatos de desigualdade social.
Agora é no relatório sobre a Situação Mundial da Infância 2000, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O Brasil tem 21 milhões de crianças miseráveis. Em pleno portal do século 21, minhas crianças. Essa coincidência de numerais - 21 milhões de crianças e século 21 -, aliás, pode propiciar interessantes campanhas para os marqueteiros do governo. Passo a idéia de graça, sem nenhum ônus para os cofres públicos, para não dizerem que sou fracassomaníaco.
A Zâmbia é amadora em certas áreas - corrupção, crime organizado, essas coisas -, mas em outras haja esforço tucano e parceria com a garra do PFL para não perdermos o caneco. A causa evidente da criançada estar na miséria é a distribuição de renda. E neste caso a Zâmbia salta um dobrado com a gente: o Brasil é classificado entre os países com pior distribuição de renda do mundo.
Estamos ao lado do Panamá, Botsuana, Quênia, Costa do Marfim e - ô coisa, larga do nosso pé! - Zâmbia. Chico Buarque era um otimista: cantava que este país ainda iria tornar-se um imenso Portugal e vamos acabar como uma grande Zâmbia.
Por isso urge conhecê-la. Lá em cima, no mapa, você pode vê-la no centro da África, sinal de que deve faltar a seus miseráveis o privilégio de alguns dos nossos, que da janela de seus barracos tem uma visão perfeita de nossas lindas praias e do mar que encanta os turistas do mundo todo. Sem falar no coqueiro que dá coco, é claro.
A língua oficial é o inglês, o que lhes dá uma boa vantagem: podem ver filmes sem legenda e fingir sofisticação sem to use de língua alheia e nem delivery de termos que não são de sua cultura. Very good para eles. A Zâmbia tem até uma data nacional da Independência - 24 de outubro -, o que mostra que isso eles também sabem fingir como a gente. Não descobri o nome do Pedro I deles ainda.
A moeda é a quacha zambiana (é dividida em 100 ngui, sei lá por que). Não consegui a informação se esse real deles já teve paridade com o dólar americano, mas isso é fácil: qualquer Gustavo Franco africano pode operar o milagre. O regime político é igual ao nosso: república presidencialista. O mandato presidencial idem: cinco anos. Ainda não sei se o FHC deles teve que gastar muito para conquistas cinco anos de poder.
Vocês estão vendo, conforme a pesquisa avança vamos descobrindo mais parecenças. E mais diríamos se já não estivéssemos sem espaço: nossa identidade é grande. Mas termino dizendo que prosseguirei nas pesquisas sobre a nação amiga - olha a intimidade - que está sempre conosco no pior e no pior ainda. Acho que é caso de entabular uma parceria para uma criação de um bloco nas Nações Unidas: o Bloco dos Sujos.
Jota
Fiquei muito satisfeito em saber que a gráfica do Senado está imprimindo agendas personalizadas para vários senadores. Realizações desse tipo podem ajudar muito na agilização dos trabalhos da casa, organizando a vida do parlamentar. E sendo personalizada, a agenda acrescenta ao dia-a-dia dos nossos senadores uma satisfação que somente um fetiche desses pode proporcionar. O fato de alguns deles também estarem presenteando secretárias, assessores e esposas com agendas semelhantes mostra que a operosidade nos trabalhos do Senado para o ano que vem se espalhará entre a família e conhecidos.
A única chateação é que o custo das agendas - 90 reais cada - será rateado entre os contribuintes brasileiros. Parafraseando aquele herói de quem esqueci o nome: os que forem brasileiros que me sigam para pagarmos mais essa conta.





