Previsões para passar o ano
Sei que, dos suplícios de final de ano, um dos piores é ler as inúmeras previsões para o próximo ano. Neste 1999 o problema se agrava porque espalhou-se como praga do século a idéia errada de que o milênio termina aqui; então dá-lhe lista do século. Com a proliferação da informação, principalmente via Internet e por meio de televisões à cabo, este seguramente é o século do milênio com mais listas do século. E aí vai mais um para a lista.
Indefectíveis previsões para o ano seguinte, portanto, é a previsão infalível para todo ano que se inicia. Dá até para dizer que as profecias surgirão entre novembro e dezembro. É batata: é tão certo quanto o Lula falando que não está pensando em ser candidato a presidente da República.
O que não estava previsto é que até eu iria entrar nessa e apresentar minhas previsões para o ano que se inicia. Portanto, só para embaralhar as profecias, ajudar um pouco o imprevisto e desmoralizar essa mania de prever o futuro, vamos às nossas previsões.
Jota

ERRATA, Ô PEDRO BÓ!
Chico Anísyo anda com a macaca: soltando o verbo e falando sem peias - ôpa, lembram dessa? - sobre todos. De Zélia Cardoso de Mello, ex-ministra da Fazenda de Collor de Melo e sua ex-patroa, disse: foi um erro eu me casar com ela.
O humorista da Globo é um caso raro: de tanto interpretar tipos calcados nos mais comuns dos brasileiros, tornou-se um supra-sumo da nacionalidade. E como humor é - quase que por norma - calcado sempre nos desacertos da espécie humana, ele acabou chegando à quintessência do erro, em um aperfeiçoamento notável do equívoco.
Milhões de brasileiros erraram votando em Collor de Mello, mas Chico Anísyo foi o único que além disso casou com sua ministra da Fazenda.





UMAS E OUTRAS DE 2000
Não chegará o Século 21. Todos acordarão com as notícias sobre a verdade do Milênio: o século só começa no primeiro dia de janeiro de 2001. Intercalando essas notícias, propagandas chamando para revéillons de fim de milênio, lançamento de fim de milênio, enfim para um monte de badulaques comerciais que usam o fim do milênio. Desta vez para 2001.
Paulo Maluf é candidato à prefeitura de São Paulo.
A Rede Globo contrata Edir Macedo para abrir uma rede de igrejas para combater a audiência da Igreja Universal do Reino de Deus.
Não há sinal nenhum do bug do Milênio no Brasil pois os nossos computadores entrarão em pane.
O bipresidente Fernando Henrique Cardoso viaja para o exterior.
Virá uma inflação de economistas, tecnocratas e similares explicando para a população que não há inflação.
Paulo Coelho lançará um livro.
Roberto Carlos aproveita e lança um CD. No final do ano.
Os candidatos do PSDB nas eleições municipais evitam defender o governo de FHC, com exceção de alguns candidatos que antes de explodirem fora do alvo ainda gritam tora, tora, tora!
O bipresidente Fernando Henrique Cardoso viaja novamente. E novamente. E novamente.
O senador Antonio Carlos Magalhães bate boca com alguém.
As três louras - Angélica, Eliana e Xuxa - se juntam na capa de uma revista. Nas outras capas, outra loura, a Galisteu.
O compositor Peninha estoura nos rádios com uma música de Caetano Veloso.
O Brasil acerta mais uma meta com o FMI.
Previsões otimistas do governo de equilíbrio nas contas. Para o próximo ano.
ACM continua tentando acabar com a pobreza, mas os pobres conseguem fugir a tempo.
Será o ano do Ronaldinho. Fora de campo, é claro. Mais exatamente na mídia e nos comerciais, onde joga um bolão.
O Brasil terá um ano excepcional, afinal é o ano em que seus problemas todos vão passar a ser problemas do século passado.



1 Está um toma-que-o-filho-é-teu em Brasília e desta vez não é no Palácio do Planalto que o jogo de empurra corre solto. É o caso do trabalhador assassinado durante a manifestação de grevistas na frente da Novacap, empresa de urbanização do governo do Distrito Federal. O governador Joaquim Roriz diz que vai achar o culpado. O comandante-geral da Polícia Militar afirma que a morte e os ferimentos nos grevistas foram provocados pela falta de comando e indisciplina da tropa. Ninguém assume a ordem de comando para que os policiais descessem o sarrafo nos trabalhadores. O negócio é caçar um praça para culpado.
2 Tempestade em copo dágua. Resolve-se tudo facilmente apenas com uma ligação telefônica. Mais exatamente para o Principado de Mônaco. A polícia de lá encontra o culpado sem dar tempo para alguém dizer elementar, meu caro Watson. E antes mesmo que o governador Roriz possa olhar suas belas madeixas no espelho do banheiro. Teje preso!
3 Ou então é partir para a solução brasileira e chamar o perito Badan Palhares para ajudar a provar que após provocar ferimentos em seus companheiros grevistas, o morto - José da Silva, sim senhor, parece drama teatral - suicidou-se com bala de borracha.
4 Política é realmente outro mundo. Não é parte dessa dimensão na qual sobrevivemos nós, meros e mortais eleitores. Quando um um governo realiza uma obra, qualquer porcariazinha, mesmo que faça parte apenas de sua obrigação, o governador inaugura com pompa; corte de fita, fanfarra, tapete vermelho; em algumas ocasiões chamam até gente do estrangeiro. E sai foto em jornais e revistas. E muita propaganda na televisão. O governador aparece em todas, todo satisfeito, falando de sua obra. Mas quando acontece algum problema, o governador sempre sai procurando algum culpado.
5 O bipresidente Fernando Henrique Cardoso chegou de viagem, se indignou com algumas barbaridades que andam acontecendo por aqui e já está partindo novamente. Está certo: o Brasil anda mesmo insuportável.

VOCÊ SABIA?
Em países emergentes a teoria econômica do Neoliberalismo se baseia no tripé bala de borracha, cassetete e gás lacrimogêneo. Nas situações divergentes mais complexas é facultado também o uso de balas normais. Em todo o caso, de Seattle ao Oiapoque, passando por Brasília, Buenos Aires, Curitiba ou São Paulo, a globalização garante escoriações, cortes e equimoses distribuídos com igualdade para todos os trabalhadores dos diversos continentes.

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