Jota
Não fosse um Papai Noel que passou por mim outro dia, juro para vocês que teria esquecido do Natal. Ao menos até que a felicidade espontânea que surge nos comerciais de televisão nessa época do ano me acordasse para o fato de que não adianta tentar evitar: o Natal está aí.
Os pinheiros surgem de supetão, com seus galhos repletos de brilhos de cristal e a neve acumulada descendo do topo das árvores até o chão das lojas - alguém feche essa janela que vou acabar apanhando um resfriado. A alegria da propaganda de Natal não se transfere naturalmente para todos. Sempre há um ou outro distraído, como eu, que não percebe a transformação brutal da realidade, a harmonia invadindo os corações. Essas crianças louras e de cabelos cacheados, com seus lindos sorrisos e bochechas rosadas, são miragem para uns tipos como eu.
E tem o Papai Noel. Este que passou por mim - o Papai Noel mesmo, perfeito, com aquela barba enorme, a roupa vermelha do alegre Papai Noel vestido de vermelho inventado pela Coca-Cola na década de 30 -, parece ter vindo confirmar minha tese de que já não se fazem Papais Noéis como antigamente.
O pobre velhinho andava com desconforto, molhado de suor, praticamente aprisionado dentro daquela roupa mais apropriada para a caça de focas no Ártico - caso não fosse um Papai Noel políticamente correto e ecológico - que para o uso em pleno trópico. Para um Papai Noel de rua não há o mesmo conforto de um Papai Noel que faz sua festa natalina dentro dessas lojas que mantêm - sabe-se lá por quê - o ar condicionado sempre na temperatura mais fria. Na rua, essa frente quente que surge sempre em dezembro para desmoralizar as neves publicitárias, torrava o velhinho, certamente de um patamar mais baixo dentro da escala social dos Papais Noéis.
À caracterização perfeita, quase profissional, faltava um elemento fundamental, sem o qual não é possível acreditar em Papai Noel. Os Papais Noéis de antigamente - e ninguém me acuse de saudadosista do Papai Noel; é apenas uma inocente tese que, depois, como disse o bipresidente FHC, todos podem esquecer que escrevi - traziam sempre aquele misto de riso e gargalhada, aquele rô, rô, rô bonachão que completava o figurino. Era um riso como esse que vemos nas fotos do bipresidente FHC no exterior.
Este Papai Noel que passou por mim não era de muito riso, talvez devido à falta de uns copaços de vinho italiano de boa safra, que facilita muito aquele tipo de riso que todo Papai Noel deve ter colado ao rosto para fazer boa figura. Aliás, nem um pequeno sorriso este Papai Noel trazia. Fazia seu trabalho com uma circunspeção de escriturário.
Agitava em uma das mãos um sino, objeto fundamental para caracterizar o verdadeiro Papai Noel. Passou badalando de modo apático o sino, tropeçando nas pernas, cabisbaixo. Um Papai Noel triste como um Carlitos nos piores momentos. Uma prova viva de que a infalibidade do Natal está cada vez mais comprometida. Sem o riso na cara dos Papais Noéis o espírito de Natal corre um sério risco.
Por isso urge resgatá-lo, sem o sensacionalismo publicitário das mensagens vazias e de puro apelo comercial. Também sem o alarde demagógico de CPIs - uma CPI do Papai Noel acabaria em pizza de nozes? - de muito rojão e poucos resultados. Com todo o tato, num esforço conjunto que junte os homens e mulheres de bem ainda é possível encontrar esse sorriso. Vai dar uma trabalheira, mas é possível. Deve estar no mesmo lugar onde aquelas crianças da Febem perderam os seus.
Jota
1 Interessante, diria até instrutivo, o diálogo entre o senador José Roberto Arruda (PSDB-DF) com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. O senador Arruda foi pedir ao presidente Teixeira que o Gama, time de Brasília, sua base eleitoral, permaneça na série A. É aquela velha história da pressão dos clubes rebaixados para que o futebol seja jogado em confortáveis tapetões e o campeonato do ano 2000 seja realizado com 24 clubes.
2 Pelos direitos do clube de seu coração - o grande Gama, é claro -, o senador é um homem capaz de tudo. Disse que até poderia apoiar uma grande investigação no futebol brasileiro. Antes do encontro com Teixeira, o senador falou aos jornalistas que também poderia apoiar a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o contrato da CBF com Nike. Se nós não conseguirmos um entendimento por meio do diálogo, acho que valia a pena essa atitude, já que o Brasil precisa também passar a limpo o futebol. Na saída do encontro, na CBF, o senador José Roberto Arruda disse que mostrou seus argumentos para Teixeira e que ele entendeu sua reivindicação.
3 Que tal uma CPI sobre o uso de CPIs que repousam - como uma arma engatilhada - nas gavetas do Congresso Nacional?
4 Depois de ser acusado por assédio sexual,ameaça à integridade física e por falso alarme ao Corpo de Bombeiros de São Paulo - tudo com boletim de acorrência em delegacia de polícia - o apresentador Sérgio Mallandro devia mudar seu pseudônimo artístico para Sérgio Ottário, assim, com dois tês para ficar mais chique.





