O PARCEIRODA BOA ARTE








Bebadosamba, que deu à Elifas o Prêmio Sharp. Abaixo, capa do CD da recém-lançada coleção MPB Compositores, mais um projeto e criação do artista na área editorial








Acima, capa de um dos primeiros discos de Martinho da Vila, de 1974. Abaixo, seu último lançamento, um delicioso disco de samba que chegou a vender 1 milhão de cópias. Martinho, ao lado de Paulinho, é um dos mais antigos parceiros de Elifas





O artista gráfico Elifas Andreato é sinônimo de qualidade. Artista competente, cria a partir da combinação dos materiais mais inusitados - restos de compensado, nanquim, ecoline, panos, bonecas quebradas, argila, sandálias, folhas secas; até um vagão de trem e um quarto de cortiço ele montou como uma ilustração para o disco Ópera do Malandro, de Chico Buarque. Tudo serve de matéria prima para a criação das capas de discos e encartes.
Elifas Andreato tem os pés-vermelhos da terra do Norte do Paraná, onde nasceu em 1946. É de Rolândia, cidade que ele prefere chamar de Caviúna, belíssimo nome que foi trocado pelo atual.
Homem de bom gosto musical, escolhe a dedo os artistas para os quais trabalha. Faz verdadeiras parcerias na Música Popular Brasileira. Com Martinho da Vila e Paulinho da Viola já são mais de vinte anos de trabalho desde as primeiras capas de discos. Com a capa do disco Bebadosamba, de Paulinho da Viola, ganhou neste mês o Prêmio Sharp de Música na categoria ‘‘melhor programação visual’’.
Elifas foi editor de arte da famosa coleção Música Popular Brasileira, fascículos que traziam encartado um disco e que fizeram imenso sucesso no país na década de 70. Lá, criou inovações na área de diagramação e ilustração. Foi também um dos fundadores dos jornais Opinião e Movimento, semanários de oposição ao Regime Militar. Além disso, tem participação ativa no movimento teatral brasileiro desde os anos 70. Seus cartazes dão um significado artístico à promoção das peças. E fez cenários para encenações importantes do teatro brasileiro, entre as quais Muro de Arrimo, que recebeu o prêmio de melhor cenografia da APCA.
Com tudo isso na história de sua vida, Elifas Andreato virou selo de qualidade. Se a peça tem seu cartaz ou cenografia, entre que é teatro do bom. E se CD traz sua capa, pode levar para casa, meu caro ouvinte. É música de primeira para os seus ouvidos.
Jota









CRÔNICA


Devasso devassado












Abriu a porta do apartamento e encontrou o amigo do lado de fora com uma mala na mão, um sorriso amarelo nos lábios e um olho roxo
- Não precisa dizer nada - disse em tom de gozação - a Lucinha te expulsou de casa.
- Não brinca, rapaz. Agora não tem volta, dessa vez ela descobriu tudo. Preciso de uma hospedagem por uns dias até encontrar um lugar pra ficar.
O amigo entrou e acomodou-se no sofá. Aceitou o copo de uísque e levou o copo gelado ao olho roxo fazendo uma careta de dor.
- A Lucinha conseguiu todas as provas - disse, depois de um generoso gole - e agiu mais rápido que o Deep Blue com o Kasparov: xeque-mate.
- Mas você não era ‘‘o rei das escapadas’’? Qual foi o erro dessa vez?
- Uma conspiração, colega. Não haveria rei que desse jeito. Primeiro foi batom na camisa. Dá pra acreditar? Mas dessa me safei: apelei pra velha desculpa da ‘‘festa de aniversário no escritório’’.
Serviu mais uma dose para o amigo. Conteve-se para não rir de sua cara de desalento enquanto contava a história.
- Mas aí surgiu mais um problema. Uma gravação em fita. Sei lá como, apareceu em casa a gravação de uma conversa minha com um dos meus casos. Até agora me pergunto como gravaram aquilo. E era um daqueles papos mais apaixonados. Suei frio, mas neguei tudo. Disse que não era eu. Que era uma armação. Jurei pelos nossos filhos que jamais faria uma coisa dessas...
- Peraí, mas vocês não tem filhos...
- Nessas horas a gente apela pra qualquer coisa. Mesmo na dúvida, ela aceitou minhas razões.
- Então qual foi o problema? Se até com gravação em fita ela acreditou em sua palavra...
- Aí é que está, só pode ser uma conspiração. Hoje a Lucinha ligou o vídeo e me mostrou umas cenas que quase me matam do coração. Era um vídeo amador mostrando um casal em pleno ato sexual. E sabe quem era o marmanjo que estava na cena? Era eu! Eu mesmo, esse que vos fala pego em flagrante com uma das minhas amantes num motel da cidade. E as cenas eram nítidas. Explícitas! Dava para me identificar com toda a segurança. Era impossível negar, mas ainda tentei uma última cartada. Confessei que tinha um caso, sim. Ela estava certa. Mas tinha um porém...
O amigo serviu-se de mais uma dose de uísque. Estava abalado. Engoliu a bebida de uma vez e passou uma pedra de gelo em volta do olho ferido.
- Mas e então? -perguntou.
- Disse pra ela que era apenas um caso isolado. Rapaz, mas a Lucinha tem um direto de direita!

mockup