Tucano e outros bichos
Estou cada vez mais fascinado com os estudos que ando fazendo com o tucano, este impressionante animal político que adentrou a política brasileira com a promessa de permanecer 20 anos no poleiro do poder. É interessante constatar que além da baixa autonomia de vôo - mantendo-se durante vinte anos no poder, certamente dezoito serão no toco - outra característica marcante do tucano é sua leseira, um estado de pouca atividade mental e corpórea que lhe cria uma dificuldade danada para perceber os problemas e, consequentemente, realizar ações para solucioná-lo.
  Completando cinco anos de poder, os tucanos começam a perceber que o país tem sérias dificuldades em vários setores. Na semana passada, por exemplo, o ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, avisou a todos que encomendou um trabalho para descobrir quantos cursos profissionalizantes existem no país. É uma iniciativa louvável. Paulo Renato, segundo avaliações de analistas políticos, é um dos tucanos mais atilados e rápidos. Mas isso aumenta um pouco - uns cinco dedos da mão de promessas do FHC - nossos temores, pois significa que, cinco anos após a posse e em meio a um terrível desemprego, ele ainda não sabe!
  Vejam que tipo de reações a personalidade apalermada de um tucano causa na gente? Eu, que detesto ponto de exclamação, tive que teclar um. Mas haja exclamações para as descobertas tucanas. Ainda este ano chegaram à conclusão de que o nosso sistema de transportes não pode depender quase que exclusivamente do transporte rodoviário! Que a ecologia é uma das questões importantes do nosso tempo, com o problema das queimadas merecendo uma atenção especial! Atentaram também para o problema da burocracia, que emperra a realização de qualquer ação por parte do governo federal!
  Trata-se de uma ave que realmente provoca exclamações. E não é só no plano federal. A constatação de que o tucano é um bicho político dos mais lerdos não surgiu de estudos da ave apenas no plano federal. Observem o tucano Almir Gabriel no Pará, terra onde aconteceu o massacre de Eldorado dos Carajás. É um espécime que confirma não só o caráter científico de minha tese, mas também sua abrangência.
  E a observação do tucano histórico Mário Covas, de São Paulo, também contribui para dar maior validade ao meu estudo. Covas chegou à conclusão de que o problema do menor é realmente grave no estado de São Paulo. E de que a Febem de lá agrava o problema ao invés de solucioná-lo. Com cinco anos de governo. Apesar de ser do ponto de vista estilístico uma coisa feia, esta descoberta tucana exige uma exclamação! Deêm um tempo ao tucano paulista e ele descobrirá que a Polícia Militar de lá também é um problemão.
  Neste andar, a tartaruga certamente será desbancada como símbolo de vagareza. Bolado por um marqueteiro contratado, o símbolo do tucano realmente funcionou. Grudou no PSDB, de modo que hoje tucano é mais facilmente identificado com o habitat político brasileiro do que com a outrora exuberante selva brasileira.
É assim que os símbolos vão tomando o lugar da realidade. Passamos a ver aquele bicho bonito com outros olhos. Até mesmo com uma certa desconfiança, a mesma que reservamos para a raposa, pobre animal que, de tanto ser comparado com político espertalhão, hoje goza de uma fama das piores no mundo animal.
  Em algumas ocasiões - quando ele fica com a culpa e o PFL leva o resto de bom, por exemplo -, nosso tucano fica com o jeito de um burro, pelo menos na nossa cabeça. Noutras, quando se trata de democracia nos atos de governo ou de lisura com o dinheiro público, é um peixe fora dágua. E por aí vai, um zoológico político inteiro de expressões para este espécime nada raro que enriquece o folclore político brasileiro de um modo desmoralizante para a natureza. Que deve estar muito interessada no sucesso da campanha do Fora FHC; pelo menos para salvar a cara do tucano verdadeiro.
Jota


1José Carlos Encina, o conhecido Escadinha conquistou no Supremo Tribunal Federal o direito ao regime de prisão semi-aberto. Ele agora pode apenas dormir no presídio.
  Escadinha foi condenado a 50 anos de prisão por tráfico de drogas e outros crimes e está preso desde dezembro de 1982. Já tentou fugiu uma vez da prisão usando um helicóptero. Também é suspeito de envolvimento no assassinato de um preso no presídio Bangu 1, onde está cumprindo pena.
  Até agora não se sabe de nenhuma manifestação da novelista Glória Perez e muito menos de seus colegas atores da Rede Globo.

2 Luís Inácio Lula da Silva, presidente de honra do partido da estrela solitária realmente recebeu o senador Antonio Carlos Magalhães no evento Caminhos do Desenvolvimento e Combate à Pobreza. Juntos, enriqueceram o debate sobre a pobreza no Brasil.
  ACM criticou as elites brasileiras - não, meus amigos e minhas amigas, não é mais uma seção o palhaço aqui sou eu. Lula, sem medo de ser feliz ou cair no ridículo, atacou de factóide: pediu união e para que esqueçamos por um tempo as divergências ideológicas.
  É um bom plano de ataque. Mas convêm perguntar, como mandava o bom e velho Garrincha, se alguém avisou o adversário.

3 Lula tem conceitos insólitos de democracia. No início deste mês vetou o nome do jornalista Luiz Maklouf Carvalho como um de seus entrevistadores no programa Roda Viva, da TV Cultura. Maklouf é autor de matérias denunciando tráfico de influência em prefeituras petistas, onde um compadre de Lula - o empresário que cedeu uma casa para ele morar de graça durante anos - estaria envolvido. E também escreveu sobre a compra do apartamento do petista em São Bernardo do Campo. Uma história complicada, onde aparece também o tal compadre. Para Maklouf, o caso até hoje é obscuro.
  Só acredito em democracia petista - isso me cheira a peru à brasileira - se nesta cruzada contra a fome um dos convivas do Lula for o jornalista Luis Maklouf Carvalho. Além do companheiro ACM, é claro.

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