Desde que marqueteiros o vestiram de branco nas últimas eleições, Luís Inácio Lula da Silva vem se comportando de um modo muito estranho: suas atitudes parecem ter sempre em foco o máximo em exposição de sua imagem na mídia.
Tomar uísque de noite, secretamente, com o bipresidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, foi um dos sintomas de uma doença que pode ser definida como ‘‘Síndrome do Branco’’, probleminha que afeta bastante os políticos brasileiros. O quadro clínico é dos mais graves e nele pesa sempre mais a capacidade de propagação de uma idéia do que sua qualidade. O estado de Lula mostra-se preocupante com o convite feito ao senador Antonio Carlos Magalhães para sua participação em um seminário do PT marcado para outubro. O seminário prevê um debate entre ACM e Lula sobre projetos de combates à pobreza.
O presidente do Senado é um especialista no assunto já que seu estado natal é um excelente campo para pesquisas sobre a pobreza brasileira.
Na Bahia, dominada por ACM há quase trinta anos, o percentual de crianças pobres é quase o dobro da média nacional.
Mesmo tendo o maior PIB do Nordeste, a ‘‘taxa de pobreza’’, medida pelo Ministério da Saúde, é maio que a média nordestina.
Em 1996, data do último dado disponível, 50,5% das famílias baianas recebiam menos que meio salário mínimo mensal. Na Paraíba, o porcentual era de 46,5%, em Pernambuco, de 45,1%, em Sergipe, 44,3%, e no Rio Grande do Norte, de 43,4%. A média da região Nordeste é de 50,1%.
A mortalidade infantil na Bahia cresceu nos últimos dez anos. Era de 43,7 por 1 mil crianças vivas, número que passou para 51,96 por 1 mil em 1996.
Um ‘‘know-how’’ em pobreza desse naipe pode explicar a insólita predileção de Lula por ACM para a discussão de tema tão importante neste momento.
Ou então esta ‘‘Síndrome do Branco’’ do petista tem causas semelhantes a de outro sintoma, revelado em seu recente embasbacamento com os acontecimentos na Venezuela, quando mostrou-se um fanzoca de Hugo Chávez. Luís Inácio Lula da Silva ultimamente anda muito ligado em um ‘‘coronel’’.
Mas não é só notícia ruim que a Bahia têm. O compositor Dorival Caymmi andou se lembrando de algumas composições inéditas. Caymmi tem uma obra musical de uma qualidade inversamente proporcional à quantidade. É compositor de poucas músicas, sempre de altíssima qualidade. É pouco, por isso qualquer novidade que surja ou ressurja na mente do mestre nos deixa de ouvidos ávidos.
Dorival Caymmi lembrou-se de quatro músicas inéditas que compôs quando adolescente na Bahia. Já foram devidamente anotadas por seu filho, Danilo.
Uma notícia dessas compensa o esforço de viver em um país em que a mídia toca ACM demais e Caymmi de menos.
DEU NO JORNAL ESPANHOL ‘‘EL PAÍS
‘‘70 exposiciones convierten a Río en capital mundial del grabado’’
Tradução: Curitiba perdeu mais essa, a de centro da gravura no Brasil. Vamos acabar tendo que levar os turistas para visitar as montadoras de automóveis.
Descoberto um bom cargo para FHC após o término de seu governo: o de Secretário-geral da ONU.
Ele tem a dificuldade de tomar decisões e a morosidade em colocá-las em prática ideais para o cargo.
O Brasil é realmente um fenômeno. Vai conseguir entrar no terceiro milênio com os pés no século passado.
O problema desse governo é que as novidade são sempre de segunda mão.
O excesso de cortesia posso debitar no cartão?

Calma que a África é nossa!
Bons tempos aqueles, quando líamos certas notícias nos jornais – por exemplo a notícia de um ex-secretário de Segurança de uma grande cidade da, digamos, Colômbia, assassinado a tiro – e podíamos pensar, com uma certa ironia, que um país desses não podia mesmo dar certo.
Quem não se lembra da visão da primeira família embaixo de um viaduto? Era uma cena chocante, mas parecia que não era conosco: era melhor pensar que aquilo era coisa da Zâmbia, Paquistão, um desses países que surgiam sempre no noticiário com fatos estrambóticos, entre eles o de famílias vivendo embaixo de viadutos.
No início da década de setenta o espanto era com as notícias sobre países da América Latina em que existiam favelas onde a polícia não se atrevia a entrar. As favelas brasileiras ainda não haviam se transformado neste cenário de horror de agora.
Logo depois – enquanto sorriamos do descontrole total em países da América Central – começou a se falar por aqui de locais onde a autoridade do Estado não valia nada. Em certas favelas do Rio de Janeiro onde, com as ausências do poder público, os criminosos acabaram tomando o controle da vida da população local.
Enquanto esperávamos que o governo subisse o morro, foi o descontrole social que desceu. E com a ausência – ou participação ativa – das autoridades, o Brasil hoje é capaz de criar fatos que lembram aqueles bons tempos de que falei lá no início, quando as notícias escabrosas geralmente saiam na seção de internacional. Só que agora os fatos são acontecidos aqui.
Essa notícia sobre deputado do PFL, da base eleitoral do governo, acusado de liderar quadrilha de assaltantes, ser aliado de traficantes e de torturar – serrando a pessoas vivas! – e matar impunemente durante anos no Acre parece um daqueles acontecimentos de país pobre da África. Líamos uma notícia dessas e balançávamos a cabeça com certo desdém e uma compreensão bem paternalista diante da inevitabilidade do caos social nessas sociedades primitivas.
A situação se inverteu. E agora mesmo, enquanto você lê esse texto, pode ter alguém na Zâmbia, Paquistão, um desses países que nos forneciam assuntos fantásticos, lendo uma notícia dessas sobre o Brasil e se espantando que, às portas do Terceiro Milênio, ainda existam sociedades tão primitivas quanto as deles no Planeta Terra.
Jota
CONTRIBUIÇÃO
Para mostrar que não sou um fracassomaníaco, mas sim um ‘‘guerrilheiro das reformas políticas’’ aqui vai uma contribuição ao PFL. Convêm acrescentar ao estatuto do partido uma cláusula vetando candidatos à deputado acusados de formação de quadrilha, assassinatos e de ligação com traficantes. Serrar pessoas vivas, nem pensar.
Depois pega mal para o país.

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