Jota
Com o sexo na linha
As telefônicas só pensam naquilo? Seus comerciais de televisão passam esta impressão. Na maioria deles a mensagem é de que o caminho mais rápido para a satisfação pessoal é o do assédio ao sexo oposto. E nas pequenas cenas que preenchem o espaço entre uma novela e outra bobagem qualquer, este parece ser um prazer exclusivamente masculino.
Mulheres fazendo convites com olhares sedutores. Moças bonitas se oferecendo para homens, abobalhados com a possibilidade de tê-las à disposição em suas agendas telefônicas. Para acentuar o efeito de que telefone é coisa pra macho, existe até a propaganda de um celular em que um homossexual é ridicularizado.
Será o celular o falo do terceiro milênio? Esta conclusão pode parecer apressada, mas é para ela que as propagandas nos empurram. As cenas tem a intenção única de estimular a libido masculina. O homem é figura central, seduzido e sedutor pronto a conquistar o mundo com suas lindas garotas. E seu celular, é claro.
Cena 1: O marido, com o olhar extasiado, acorda do sonho em que dançava com uma moça sensual. Acorda com a própria esposa e aqui parece que as coisas não vão bem: ele quer dormir novamente para voltar aos braços da dançarina e fazer com ela algo mais que um número qualquer.
A telefonia antes estatal hoje é terreno privado dos varões. Lugar de mulher é na cozinha e não ao telefone? Parece ser a mensagem, talvez apoiada em minuciosas pesquisas de mercado. Esposa não usa telefone, também parece ser o resultado de algum estudo em poder dos criadores da peça publicitária.
Cena 2: Três celebridades instantâneas da televisão se oferecem para um aparvalhado rapaz. É um concurso. Cada uma briga por um nome para uma operadora que vai entrar no mercado. O apelo é exclusivamente para o público masculino.
Mulher só sabe colocar nomes em filhos? Se alguma mulher, sem nenhum interesse nos apelos sexuais das três moçoilas, criar um bom nome para a operadora, este será aceito? É uma dúvida que fica com os beijos de Galisteu, Seco e Spiller para a platéia masculina.
Cena 3: Um outro rapaz por que eles têm sempre um ar tolo é um dos mistérios da publicidade brasileira tenta atrair a atenção das moças que passam. Quando seu olhar se cruza com o de um rapaz homossexual em busca de simpatia, ele faz cara de enojado. Acreditem, essa é a piada do comercial.
Interessante. Alguma pesquisa minuciosa e inédita mais uma! aconselhou os criadores à hostilizar os homossexuais, um tipo de gente que certamente não fala ao telefone e nem usa celular.
Claro, pois a telefonia brasileira é coisa para macho. Que recebem beijinhos para dar sugestões para as moças. Sonham com parceiras de dança e de cama. E só tem uma coisa na cabeça: aquilo. Nunca com a esposa, é claro.
Isso explica muita coisa e deixa também algumas dúvidas. Se querem vender o celular como um símbolo fálico, por que torná-lo sempre cada vez menor? Isso talvez Freud explique. Mas já que a idéia central é sempre fixada em sexo, seria bom a Anatel intervir exigindo que as telefônicas expliquem que, além do celular, é indispensável usar camisinha.
Agora, o que o consumidor já sabe é que se continuarem a só pensar naquilo como suas propagandas comunicam sem descanso , as telefônicas vão ter pouco tempo para melhorar seus serviços.
Jota
O TUCANO E TARTARUGA
Cinco anos depois da posse, o bipresidente Fernando Henrique Cardoso descobriu que seu governo carece de medidas para combater o desemprego e estimular o crescimento econômico e também precisa ter mais atenção para a tragédia social que grita nas ruas. A bomba já tem até estopim: só falta acender.
Os últimos meses tem sido de revelações para os tucanos. No mês passado descobriram a impossibilidade se fazer justiça em estados onde os acusados de crimes detêm o poder de vida e morte sobre todos. O julgamento do massacre de Eldorado dos Carajás mostrou isso para um governo atônito.
O massacre aconteceu há três anos. E o Pará tem governador tucano em segundo mandato. Mas isso é detalhe. Foi agora também que os tucanos descobriram que a água é um recurso precioso e esgotável. Sem cuidado, podemos morrer de sede no futuro. Agora ,fizeram até uma agência governamental para cuidar das águas no Brasil.
Com essas descobertas é possível entender porque o ex-ministro Sérgio Motta falava em um projeto de vinte anos de poder para o PSDB. É que em política, tucano é uma tartaruga: chega bem devagar no entendimento dos problemas.
1O diário espanhol El País publica uma entrevista inédita com Jorge Luis Borges, escritor argentino cujo centenário se comemora esse ano. Como surgem entrevistas inéditas de Borges, perdidas sabe-se lá em quais labirintos.
São sempre saborosas. Borges é um grande conversador, um tipo de homem em extinção. As pessoas ainda conversam hoje em dia? Pouco, muito pouco. No convívio humano a conversação parece cada vez difícil. A música alta toma de todos os lugares. Fazer barulho tornou-se sinônimo de diversão. E a quantidade enorme de informação sem qualidade buzinada na cabeça das pessoas vai desqualificando cada vez mais a palavra.
Que diria Borges de sua Argentina se desintegrando? As filas de argentinos esperando seu prato de sopa de caridade bem que mereciam uns comentários do velho escritor. Borges tinha sempre um modo original de ver o banal. E muito antes do surgimento da figura grotesca de um Menem, ele já tinha alertado sobre o perigo do peronismo.
2 Cá no outro lado da fronteira também existiu um grande conversador: o poeta Carlos Drummond de Andrade. Homem de poucas palavras. Discreto, bem reservado mesmo. Mas algumas vezes concedia e o fez bem poucas vezes uma entrevista a um ouvinte privilegiado.
Os depoimentos de Drummond são sempre um ensinamento. Sua economia de palavras nas conversas acabava por produzir entrevistas com opiniões profundas. Nelas percebe-se a meticulosidade do artista, o cuidado extremo com a palavra: sua ferramenta de trabalho. Drummond é sempre um bom alerta contra a banalização da informação que tomou conta da mídia televisão, rádio, jornais e revistas. Informação, a gente aprendeu com ele, não é para ser tratada com desleixo. A palavra merece carinho. E respeito
A revista Caros Amigos descobriu uma entrevista inédita de Drummond feita em 1984 o poeta morreu em 17 de agosto de 1987. Publicada neste número da revista, que está nas bancas, é uma preciosidade. onde Drummond fala sobre sua escrita e reflete sobre a velhice e a morte. E, claro, sobre seu trabalho com as palavras.
3 Dois grandes achado! Só a entrevista de Drummond, uma peça cultural de alta qualidade, vale por um ano de ministério da Cultura.





