Tucano é um bicho político que adora falar. Mas devia deixar isso para quem sabe e é previdente. O papagaio, por exemplo, que não acrescenta nada ao que lhe dizem e que, apesar da fama, não é dado a gracejos. Aquela ave das piadas é pura lenda. Basta observá-lo um pouco para se perceber que ele não é um bicho dos mais bem-humorados.

Já o tucano esbanja bom humor. Não perde a chance de soltar uma frase feita. Tachando de sem-rumo os oposicionistas da Marcha dos Cem Mil, o bipresidente FHC fez um jogo de palavras que acabou fortalecendo o ato. Nem os organizadores da manifestação tinham pensado nesta ligação da preposição sem com o numeral cem.

Talvez a nostagia dos tempos em que escreveu aquilo que nos pediu para esquecer tenha levado FHC a ter uma idéia assim. O bipresidente, aliás, tem sempre essas viagens para suas vidas passadas. Até o imagino observando a manifestação da janela do palácio do Planalto, aflito por não poder participar, pensando em frases de efeito para insuflar os ânimos da massa contra o governo.

E bem que lhe caberia um cantinho no palanque, afinal ele é um sem: sem-popularidade. Pena que falte habilidade aos oposicionistas - são patéticas as respostas do líder petista Lula, um conhecido sem-humor - para tirar proveito da frase de FHC, ganhando a simpatia de todos os brasileiros sem para a Marcha dos Cem Mil. Inclusive os sem-rumo, pois no estado em que os tucanos deixaram o país, não há porque ter vergonha em ser um sem-rumo.

A categoria dos sem é interminável - tem mais de cem, garanto. Mas vamos falar de alguns deles que, com certeza marchariam com gosto rumo à Brasília.

Jota





MARCHA DOS SEM
Sem-televisão São assim por livre escolha. É um pessoal que não suporta a proliferação de ratinhos, hucks, faustõe, tiazinhas e Hebes na televisão brasileira. Fazem questão também de ir para a cama sem o gordo.

Sem-paciência Só esses lotariam Brasília. Perderam a paciência com filas, roubalheiras. Escândalos, deputado do PFL serrando gente viva, essas coisas. Não toleram nem os companheiros sem-paciência que são um pessoal que, vou te contar, haja paciência.

Sem-vagas Gente esquisita. Andam de carro dando voltas pelas cidades atrás de vagas. Mas nunca pensam em se movimentar com os próprios pés. Quando o sinal fecha, se tornam sem-paciência.

Sem-língua Vivem em shoppings, só comem em self-service e gostam de receber suas compras em delivery. São caipiras também em outra língua: são country.

Sem-saída Não vêem a luz no fim do túnel. Não vêem nem mais o túnel que, dizem, foi privatizado e não funciona.

Sem-papas-na-língua Gente diz a verdade e que fala na cara. Ultimamente andam sem platéia.

Sem-telefone Também conhecidos como sem-linha. Estão perplexos porque estava garantido que tudo seria maravilhoso se o país ficasse sem estatais.

Sem-governo Faz fronteira com Argentina, Paraguai, Uruguai y otros. A idéia mais nova que surgiu é juntar todos no MercoSemGo: um mercado econômico totalmente desgovernado.

Sem-moeda Chamados também de sem-Real. Achavam que estavam com tudo, mas acabaram caindo no real.





JUSTA HOMENAGEM

Ora direis receber homenagens, por certo perdeste o senso. Com esta pequena homenagem ao poeta Olavo Bilac, vou logo dizendo que as homenagens perderam o sentido no Brasil. Essa cultura da bajulação que permeia a nossa vida pública - mídia, política, artes, tudo, tudo - fez perder o sentido qualquer manifestação de apreço aos
feitos de uma pessoa.

Na política isso já perdeu o valor faz tempo. Mas já houve época em que um simples jantar em homenagem à alguém tinha um peso político e cultural considerável. Há um jantar memorável em homenagem ao escritor Graciliano Ramos (1892-1953) que vale por um certificado de como a obra desse homem marcou os intelectuais
de seu tempo.

Um jantar hoje, mesmo que para um artista da estatura do escritor Graciliano não teria o mesmo significado. Qualquer poeta menor - poeta municipal, como bem disse Drummond que, aliás, estava no jantar do Graciliano - recebe jantares, banquetes, comilanças variadas seguidas de títulos, medalhas, ou qualquer outro badulaque.

A comenda máxima da República - a Ordem do Cruzeiro do Sul - foi concedida ao presidente (sic) Alberto Fujimori, do Peru. Existe modo melhor de sepultar qualquer sentido em uma homenagem? Mas é assim: qualquer medalha, comenda ou título, independente de seu valor histórico ou político, segue os rumos determinados pelo interesse dos poderosos da ocasião. Até a esquerda, quando pega um naco de poder, segue o mesmo cerimonial.

Mas existem homenagens que são validadas pelo tempo. É o caso de uma praça próxima ao estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. A área é conhecida como sinal de morte e praça do terror devido às violências que ocorrem por ali. Chama-se Praça Emílio Garrastazu Médici, nome dado há mais de duas décadas por algum bajulador do ditador mais feroz do período militar. Hoje podemos dizer que é uma justa homenagem.

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