Jota
A FERA DO
HUMOR BRASILEIRO
Jota
Com quarenta anos de humor nas costas, Jaguar segue fazendo seu humor extremamente engraçado. O cartunista está com uma página na revista Caros Amigos, lançada este mês
O trocadilho do título é infame, mas para apresentar o humorista Jaguar, vale tudo. É o mais engraçado cartunista brasileiro. Dono de um traço sofisticadíssimo, burilou seu desenho até alcançar a característica do gênio: a simplicidade. Todo cartunista da nova geração deve muito ao Jaguar. Primeiro porque ele é um dos criadores do Pasquim, sem o qual a nossa vida profissional não teria tido a mínima graça. Depois porque o seu desenho é tão forte que todos - sem exceção - pegaram algo do seu traço.
Jaguar é um dos colaboradores da revista Caros Amigos, que tem o seu primeiro número nas bancas.Na Caros Amigos, publicação de altíssima qualidade, ele tem uma página de humor. Seu minicurrículo, escrito pelo próprio cartunista e publicado na revista, vale a pena ser transcrito aqui. É a apresentação perfeita do Jaguar: Nasci bissextamente em 29 de fevereiro de 1932 e nunca mais parei. Nesses quarenta anos de rabiscos, fiz pelo menos um desenho por dia (fiz mais); dá 14.600 desenhos. Comecei na Manchete em 1957, participei da revista Senhor e do Pasquim do primeiro ao último número. Aos 65 anos, sou editor da A Notícia, faço charges diárias e crônicas semanais no O Dia aos sábados, uma meia página de humor - O Diabão - no mesmo jornal. Ilustro livros, faço cartuns na revista Drink etc.
Além disso tudo, o cartunista passou esses quarenta anos trabalhando contra a profecia de Millôr Fernandes que, à quatro décadas, quando foi procurado pelo iniciante Jaguar, do alto de sua prancheta, declarou: Desista disso, rapaz. Você não tem jeito pra coisa.
PERGUNTA
E se, ao invés de ficarmos excitados com a entrada no ano 2000, procurássemos sair antes da idade-média?
MEDOSNós fomos educados para ter medo de índio. Me lembro até hoje da gente folheando as revistas O Cruzeiro com as primeiras fotos das aproximações com as tribos índígenas, aquelas matérias com os irmãos Villas-Boas, e o medão que dava daquele povo da floresta.
Mas também, não era pra menos. Na escola, na rua, em casa, sempre tinha um adulto pra avisar a gente como índio era ruim, perigoso. Quando viamos algum índio na rua, arrepiávamos de medo. Era pior que o homem do saco. Xavante, Juruna, a criançada soletrava com desconfiança os nomes das tribos. Os bandeirantes - matadores de índios, ensinavam com orgulho nossos professores - eram os nossos heróis.
Depois veio o cinema americano com sua máquina de propaganda branca.E passamos a torcer pelo General Custer e suspirar de alívio com os clarins da Cavalaria Americana. Cheyennes, Moicanos, esses nomes faziam os meninos temerem por seus escalpos.
Quero meu dinheiro de volta! Me passaram a lição errada e fiquei estes anos todos exposto ao perigo, alerta ao inimigo errado. Eu vou é pro mato, com os Tapuias, os Timbiras, os Guaranis, os Caiapós,os Pataxós! E cá na cidade, vou é ficar sempre atento ao inimigo certo: as feras urbanas.





