Jota
Por falar em briga, um refresco na memória sobre uma em que o senador ACM entrou e quis sair rapidinho. Foi no governo Itamar Franco, acusado pelo senador de abrigar corruptos. Bem ao seu estilo, ACM ameaçava dizendo ter comprovação de corrupção. O presidente Itamar convidou então o senador a levar suas denúncias ao palácio do Planalto.
ACM foi ao encontro do presidente Itamar Franco sobraçando umas umas pastas - nenhuma delas rosa. Mas Itamar, de modo inesperado, convidou os jornalistas para assistirem a audiência. A sala ficou repleta. A cena foi filmada e fotografada de diversos ângulos, todos à espera da grande bomba.
Deu chabu: não saiu denúncia alguma das pastas de ACM, que ficou com cara de tacho de fritar acarajé - além de um ódio eterno ao Itamar Franco, que ACM guarda na geladeira. Também ficou a certeza de que o senador da Bahia dá uma boiada para que ninguém se lembre dessa briga.
O amigo da onça baiano de FHC!
O governo do bipresidente Fernando Henrique Cardoso tem na figura de seu aliado Antonio Carlos Magalhães um grande aficionado da cizânia. O senador ACM dá uma boiada para entrar numa briga e outra boiada para não sair. Brigou com amigos do presidente; com o Judiciário; com ministros tucanos do governo; até com o Ciro Gomes, que precisava muito de uma briga para sair nas folhas.
Com sua proverbial afoiteza, agora o senador já está internacionalizando suas pendegas. Fez de tudo para levar a montadora de automóveis Ford - que saiu do Rio Grande do Sul - para a Bahia. Até em datas de leis mexeram. A Medida Provisória ainda precisa da aprovação do presidente da República, mas a instalação da montadora já foi festejada na capitania da Bahia e o governo local mandou publicar anúncios em jornais e revistas nacionais anunciando a parceria Bahia-Ford.
A briga agora é com a Argentina, que não gostou dos privilégios, empréstimos e subsídios dados à Ford. A guerra fiscal - um dos itens fundamentais do projeto tucano de desenvolvimento - internacionalizou-se, com o presidente argentino Carlos Menem ameaçando ir à Organização Mundial do Comércio (OMC) se a festa baiana com os recursos públicos se concretizar.
Com a coisa meio desanimada por aqui - nem telefonar a gente consegue -, seria muito interessante assistir ao espetáculo do ACM batendo boca com a OMC. Ou, caso o conflito se transfira para a ONU, assistir ao senador em plena Assembléia das Nações Unidas destratando embaixadores, secretários e diplomatas. Como é que se diz mais sujo que pau-de-galinheiro em francês? E como é que traduz avacalhado para o alemão? E mordomo de filme de terror, como se fala em inglês? Neste casos, o bipresidente FHC - que enrola em várias línguas - pode ajudar bastante o aliado.
E nada temos a temer caso a Otan resolva intervir na briga. O apoio de todos os países da América Latina ao Brasil está garantido. Ninguém se arriscará a ficar à mercê da mira da Otan, que é capaz de apontar para o Senado brasileiro e acertar a Casa Rosada na Argentina.
Briga de cachorro grande está aí. E parece que para essa peleja a bancada do PFL é pouco. Mas seremos enfim - realização dos tucanos e do PFL - um país com briga de primeiro mundo!
Jota
1 O telefone tem uma relação precoce com o Brasil. O imperador Pedro II foi um dos primeiros governantes a quem Graham Bell apresentou sua invenção. O monarca brasileiro - assim como o bipresidente FHC - também gostava de viajar e se distanciar um pouco do problemático Brasil. Na Exposição de Filadélfia, em 1876, tomou conhecimento do telefone. Pediram-lhe para dizer algo ao telefone e êle resolveu exibir seu conhecimento de línguas - nisso também há uma semelhança com um conhecido nosso - e disse uma frase em inglês. Recebendo a resposta do interlocutor, perplexo afirmou: Isto fala! Esta perplexidade com as coisas que funcionam tornou-se um traço marcante do brasileiro. E até hoje, toda vez que a maquininha criada por Graham Bell funciona por aqui, nós brasileiros ficamos perplexos.
2 Homem com visão do futuro era mesmo o presidente do Corínthians, Vicente Matheus. Há mais de duas décadas já agradecia à Antártica pelas Brahmas oferecidas aos jogadores corintianos.
3 O publicitário Mauro Salles passou uma semana atarefado. Fez lobby para o ministro Pedro Malan receber empresários ligados á fusão Brahma-Antártica e também lança seu livro de poesias. Salles - conhecido lobysta e anônimo poeta - inaugura uma nova categoria literária: a poesia de resultados.





