Leminski morreu com o vírus do concretismo!
Décio Pignatari resolveu abreviar seu destino histórico e tornou-se de vez poeta municipal*?. O vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan, não deu atenção para seus ataques e agora ele achou um morto. Eu conheço a história: pega-se um bom morto, taca-se uma prosódia aqui, aplica-se uma prosódia bem elaborada acolá, forma-se uma prosopopéia e está garantido o espaço nas folhas. Em São Paulo já não havia espaço?
Objeto de análise: ‘‘O haicai é uma ’praga’ que infesta o Brasil’’. Palavras de Décio Pignatari. É uma semiverdade do indigitado semiótico. É verdade que tem muito haicai - forma poética popularizada no Brasil pelo grande sábio chinês do beirro do Méier, Millôr Fernandes - que é difícil de suportar. Coisa chocha como pulo de sapo n’água. Problema maior, porém, não é essa ‘‘praga’’, mas um vírus. É o ‘‘concretismo’’, que atingiu a literatura brasileira feito uma tijolada. Um dos que sucumbiram a esse vírus (e curou-se), o poeta Ferreira Gullar, é um de seus maiores críticos e já falou bastante do mal que o concretismo fez à poesia brasileira. O vírus chegou a pegar até o poeta Manuel Bandeira que, já ressabiado com sua tuberculose, tratou de cantar logo um tango argentino e sair dessa.
Os gurus do concretismo são os irmãos Campos, chefes de um dos mais eficientes ‘‘lobbys’’ já produzido na mídia brasileira (rivaliza com o ‘‘lobby’’ que o Partido Comunista Brasileiro - o antigo ‘‘partidão’’ fazia por seus intelectuais nas décadas de 40, 50 e 60). Um dos Campos (será o Augusto?) está traduzindo a ‘‘Ilíada’’, de Homero. Li partes da tradução em um jornal de São Paulo, porque tradução dos Campos (será o Augusto?) é assim: são anunciadas com todas as pompas. E são intermináveis, no sentido de que eles nunca terminam a tradução. Tradução deles devia sair em fascículos. Dando uma olhada na tradução, dá a impressão de que este tal de Homero era tarado por um jogo de palavras.
Não era não. É que na mão deles todo poeta traduzido parece ter loucura por jogo de palavras. Isso é o que os Campos (será o Humberto?) chamam de ‘‘transcriação’’, porque para eles ‘‘tradução’’ simplesmente não é possível. Inventaram um verbo só para eles, que não são simples tradutores, mas ‘‘transcriadores’’. Os Campos são o inverso do grande Jean-François Champollion (1790-1829), linguista francês que decifrou os hieróglifos da pedra de Roseta e abriu para a humanidade as portas da história do antigo Egito. Com os Campos (será o Décio?) a porta estaria até hoje fechada. E a humanidade esperando sentada, mas com uma inusitada ‘‘transcriação’’ da pedra da Roseta.
O guru máximo dos concretistas é o poeta norte-americano Ezra Pound. Fascista, simpatizante dos nazistas (fez programas radiofônicos insultando os aliados e enaltecendo a causa de Hitler), acabou tendo que ser declarado louco para se safar. Com a derrocada do nazismo foi preso. Intelectuais contrários ao nazismo queriam fazer um manifesto contrário à declaração do poeta como louco pelo exército americano, mas o escritor norte-americano Erneste Hemigway acabou com a festa. Convenceu a todos que se Ezra (Hemingway gostava muito pessoalmente de Pound) fosse declarado são, seu destino seria o pelotão de fuzilamento. A guerra (e os nazistas) não eram brincadeira de poeta romântico.
Bom, mas encontramos o fio de baixo da minha coluna. O vírus do ‘‘concretismo’’, indutor do jogo fácil de palavras e de exibição de erudição e da estéreis e falsas ‘‘pesquisas de linguagens’’, leva o paciente a se encaminhar mais para o tatibitate do que para a construção de uma obra madura. Paulo Leminski pegou esse vírus. Mas não foi disso que o poeta morreu: foi de alcoolismo mesmo.
Jota
*PS: O ‘‘poeta municipal’’ vem de um poema de Carlos Drummond de Andrade: O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz’’. Paulo Leminski pelo menos era poeta estadual.






1 Este caso do delegado da PF acusado de torturador mostra que o Brasil é realmente um país cordial. O homem perseguiu democratas durante a ditadura militar. Atemorizou, pressionou, perseguiu e prendeu gente que estava apenas querendo liberdade. E discutem se ele torturou ou não. Daí para criarmos uma tabela da tortura, é um passo. Proponho uma tabela de dez pontos, que vão de gritos e ameaças (um ponto) até a porrada no pau-de-arara e o choque elétrico (dez pontos). Se o candidato à diretor-geral da Polícia Federal - ou a qualquer função importante no governo - não ultrapassar três pontos (apertão no pescoço e chute naquele lugar), está liberado para o cargo.
2 E o país - incluindo nisso os traficantes de arma, de tóxicos, as máfias, os corruptos, estes na ativa - fica à espera da queda do diretor-geral da PF.
3 O senador da capitania da Bahia é outro exemplo de que eles querem é nos torturar. Antonio Carlos Magalhães, conhecido pelos amigos como Toninho Ternura e pelos adversários como Toninho Malvadeza merece também o apodo (ôba, consegui colocar a palavra em um texto) de Toninho Cizânia. Não é palhaço - não tem a graça e nem a sutileza exigida de um bom profissional do ramo -, mas gosta de ver o Gran Circo del Planaltopegar fogo. E o interessante - e aí sim muito engraçado - é ele surgindo depois nas televisões como bombeiro do incêndio que ele mesmo ateou.
4 Os desafios do presidente do Senado já constam do anedotário político. O último é um teste de popularidade em São Paulo. Desafiou o presidente da Câmara Federal, Michel Temer, para andarem os dois (será de braços dados?) em São Paulo para comprovar que ele, ACM, é o mais querido do povo do Brasil.
5 Desafio interessante. Mas para torná-lo mais crível e aproximá-lo da verdade política, Antonio Carlos Magalhães poderia escolher outro parceiro de teste. Poderia sair (agora com certeza de braços dados) com Paulo Maluf, seu candidato nas eleições para governador de São Paulo, pelas ruas da capital paulista. Poderia levar também Celso Pitta, seu candidato a prefeito. Se o deputado Temer quiser acompanhar também, bom proveito. A platéia, comovida - e com ovos na mão - agradeceria este passeio.




AS APARÊNCIAS ENGANAM
(à moda do genial Carlos Estevão)


O paginador da Folha enlouqueceu e aplicou uma fotografia de cabeça para baixo?. O Jota, no afã de revolucionar a linguagem jornalística, apronta mais uma das suas e aplica uma imagem em posição totalmente fora das convenções formais da imprensa?
Nada disso, querido leitor: é apenas o escritor Paulo Leminski que, aborrecido com as bobagens que escrevem e dizem - contra e a favor - sobre ele dez anos após sua morte, está se revirando na cova.

O início do milênio tem me deixado muito otimista. Não há por que se preocupar com a criminalidade subindo para níveis assustadores. A corrupção, que atinge todos os setores da sociedade e que está, literalmente, saindo pelo ladrão, também não é motivo para se apoquentar. Infância abandonada? Não é para se desesperar. Saúde pública largada moribunda na sarjeta? Não há motivos para pânico. Desemprego crescendo, indústrias sucateadas e agricultura mirrada e seca? Calma, que o Brasil é nosso. Ecologia devastada? Nada de tempestade em copo dágua. Falta de planejamento, de ética política? Vamos manter a serenidade. Não há porque ficar aflito, se aborrecer e deixar de dormir um sono tranquilo e justo.
Estes problemas terríveis em pouco tempo serão todos do século passado.

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