Jota
Por essa o cantor Roberto Carlos não esperava: ele e seu milhão de amigos não são páreo para o bipresidente FHC que, em seu discurso, bate todos os recordes em amizades no paísO NOSSO AMIGO DE FÉ
Agora que o pior já passou, podemos falar de alguns assuntos que estavam relegados a segundo plano pois estávamos preocupados demais com o desemprego, o custo de vida, a falta de moradia, a saúde, questões que nos tiravam a serenidade necessária para divagar sobre outros temas da vida.
O modo do bipresidente Fernando Henrique Cardoso se referir aos brasileiros em seus discursos, por exemplo, é algo que chama a atenção. Todo presidente da República faz questão de cultivar uma maneira especial, somente sua, de se referir a nós em seus discursos. É uma marca pessoal, um artifício fundamental de suas retóricas. Encontrar o termo certo - ei você aí, nem pensar - exige longas reuniões. Marqueteiros, assessores, todos os que cercam o presidente queimam a cachola (ou bestunto, pois tem asssessor de político que gosta de usar é o bestunto). É preciso muito debate até se chegar em um prosaico meus amigos e minhas amigas, que é como FHC resolveu nos chamar.
José Sarney começava com brasileiros e brasileiras. Se esforçava para que o apelo parecesse inteligente, mas só conseguia deixar a nação perplexa com o fato de um presidente da República acreditar na possibilidade de haver sequer um brasileiro (ou brasileira) capaz de acreditar que ele convocaria uma rede nacional de televisão para se comunicar, por exemplo, com os bolivianos.
Collor apelava para o minha gente, de triste memória. Evidentemente a gente dele era aquele pessoal da operação Uruguai, o P. C. Farias e outros menos votados. Entre essa minha gente brilhava também a estrela de Renan Calheiros, moço que jamais teve medo de ser feliz. Hoje é ministro da Justiça de FHC.
FHC optou pelo meus amigos e minhas amigas. O modo feminino - Sarney também fazia isso - é menos pelos direitos adquiridos das mulheres em nossa história recente e mais pelo peso eleitoral que elas representam. Alguém colocou na cabeça - e vendeu bem seu peixe para o presidente - que para ganhar o eleitorado feminino basta lembrá-las em início de discurso.
Mas falando para um público tão amplo - FHC tem mais amigos que Roberto Carlos, com apenas um milhão - seu discurso pode até barrar no preconceito de muitos maridos que não querem ninguém tratando sua esposa como minha amiga. Ou no de uma senhora mais pudica que não tem nenhum interesse em ser amiga de um homem de cabelos grisalhos.
Meus amigos e minhas amigas é um modo inadequado para um presidente se dirigir às pessoas. Amigo, o dicionário explica bem, é alguém unido a outro por amizade; pessoa que quer bem a outra. Nem é tanto pelo populismo, traço que já não espanta no perfil político de Fernando Henrique Cardoso. Apesar de se auto-intitular como inimigo do populismo, nesta área ele tornou-se um páreo duro até para o senador Antonio Carlos Magalhães. Amigo, o dicionário explica bem, é alguém unido a outro por amizade; pessoa que quer bem a outra. Então nem seria preciso o presidente usar o cabedal acumulado em anos de sociologia. Uma consulta ao dicionário já bastaria para deixar claro em sua mente que ninguém é amigo de um presidente da República.
O falecido ministro Sérgio Motta podia até ser enquadrado nesta definição. Mas é evidente que toda a cerimônia e responsabilidade exigida pelos cargos dos dois - presidente e ministro - devia colocar o interesse da nação sempre acima da amizade. Pelo menos é o que pensamos.
Ou o amigo ACM, por exemplo. Não seria de bom tom imaginarmos o presidente da República com os pés sobre a escrivaninha dirigindo-se ao presidente do Senado e mandando ver: E aí, amigo? O que manda?em um procedimento não condenável entre amigos, mas que vindo de um presidente não faria nada bem para a maltratada República.
Nós, então, que o vemos apenas nos jornais ou na televisão, não podemos ser amigos (ou amigas) deste senhor, muito conhecido até, mas que não privou da nossa companhia o suficiente para que os laços entre nós se estreitem ao ponto de serem definidos como amizade. Não somos amigos nem de vereador. Podemos até ter um amigo que se torna vereador, mas jamais um vereador amigo. Todo cargo político exige um distanciamento, recurso que incorpora muita qualidade à cidadania.
No caso do presidente, é maior a exigência de distanciamento. Senão alguém pode chegar para o presidente da República e pedir uma colocação em alguma estatal, um carguinho de ministro ou até uma dica boa sobre o mercado financeiro. São coisas que não se nega a um amigo. Afinal, todos sabem, amigo é para essas coisas. Mas um presidente não.
Meus amigos e minhas amigas também não soa bem porque fica claro que os marqueteiros que enfiaram isso no discurso do presidente resolveram apelar para um recurso fácil para o qual ninguém mais têm paciência. É a falsa intimidade, a aparência de pessoa confiável, do político que força para parecer gente da casa. Essa intimidade, os brasileiros e brasileiras bem o sabem, nunca vem acompanhada de respeito.
Jota
PS
A partir dessa semana esta página deixa de ser publicada no domingo, passando a ser publicada às quintas-feiras neste mesmo caderno. Mudamos de dia prometendo a mesma qualidade de sempre. Quem duvidar, que nos acompanhe para verificar. Até quinta.





