A acolhida de ex-ditadores, políticos fugidos e golpistas fracassados pode ser uma lucrativa fonte de divisas para o país; perdemos para a Argentina o general Lino Oviedo (na foto com o disfarce que usou na fuga para a terra de Carlos Menem), mas ainda há para se ganhar nesta atividade de muito futuro nesta era da globalização

HOSPITALIDADE PARA DAR E VENDER
O ex-governador Leonel Brizola buzinou tanto sua sugestão de renúncia na cabeça do bipresidente Fernando Henrique Cardoso, que ele acabou passando a idéia para o presidente Raúl Cubas, do Paraguai. Já como ex-presidente, Cubas passeia por terras brasileiras pois o marido de dona Ruth se animou e também convidou o suspeito pela morte de seu próprio vice-presidente para morar no Brasil.
Não se sabe se, no caso da renúncia de FHC, faz parte da proposta de Brizola o doce exílio em terras catarinenses. Não seria fácil suportar, pois o governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, é uma pessoa dada a trocadilhos e frases irônicas. Juntá-lo a FHC numa praia - os dois de calção e sem nada para fazer a não ser perpetrar frases - certamente faria muito mal para a saúde mental do país, sem falar na do Marco Maciel.
Porém, com seu despreendido gesto - mandou até avião oficial, debitado em nossa conta, claro, para buscar o ex-presidente suspeito - FHC acena de modo involuntário para uma solução que pode representar muito para a economia nacional. O Brasil tem potencial para se tornar um refúgio aprazível para ditadores apeados do poder e presidentes renunciantes ou renunciados. E até de golpistas fracassados.
A hospitalidade brasileira pode render muito para os combalidos cofres do governo. Quando saem corridos de seus países, ex-ditadores e presidentes pertencentes à poderosas oligarquias não costumam sair com uma mão na frente e outra atrás. Ao contrário, levam fortunas fabulosas para desfrutar sem percalços do exílio em um país amigo e tramar a volta ao poder para faturar un poquito más.
No Paraguai houve uma misteriosa retirada de um milhão de dólares durante a crise política que culminou com a renúncia de Raúl Cubas. Parece pouco para os padrões brasileiros de corrupção - aqui um milhão é propina -, mas, levando-se em conta que o PIB paraguaio é de US$ 10 bilhões e que suas reservas internacionais não passam de US$ 650 milhões, foi uma afanada de fazer inveja a muitos profissionais do ramo no Brasil.
Os países europeus, a França em particular, sempre foram mestres na arte de acolher ditadores amigos caídos em desgraça em seus países e, com a fortuna destes, dar uma ativadinha na economia. Eles já chegam comprando castelos, limousines. É uma aquecida interessante no ramo imobiliário, na área de bens e serviços. O ex-presidente francês Valéry Giscard d’Estaing - precursor, bem antes de Margaret Tatcher, do exercício da fraternidade e gratidão com ex-ditadores - foi presenteado certa vez com um enorme diamante pelo ‘‘imperador’’ Jean- Bedel Bokassa, ou Bokassa I, da República Centro-Africana. Autor de crimes e violações aos direitos humanos e acusado até de canibalismo, mas amigão da França. Bokassa sempre teve a hospitalidade francesa - preciosa como um diamante - como uma regalia à sua disposição.
Como vêem, é um promissor mercado para a captação de divisas. Há que se levar muito em conta a secular justificativa do imperador Vespasiano (9-79), ao filho Tito, para taxar os mictórios públicos da antiga Roma: ‘‘dinheiro não tem cheiro’’. Mas, para narinas acostumadas a suportar o odor de dinheiro da especulação internacional, não será problema.
Precisamos levar adiante a idéia e organizar a acolhida de ex-ditadores e de políticos e militares corridos por seus concidadãos. É necessário urgência, pois a Argentina de Carlos Menem mostra também estar interessada neste lucrativo negócio. Já levou o general Lino Oviedo, também do Paraguai. Se formos eficientes - criando um ‘‘Ministério da Produção de Divisas com Ex-ditadores’’, talvez - podemos estar preparados para o caso de a Inglaterra liberar o general Augusto Pinochet. Depois de todo esse tempo de turismo forçado em terras britânicas, ele há de querer descansar em recantos mais hospitaleiros.
Jota


A VIDA É BELA!
Você certamente se perguntará o que faz esse ovo preto nesta página. É apenas para simbolizar, numa data repleta de símbolos, a situação (com a permissão dos políticamente corretos) preta do país nesta páscoa de 1999. Mas se tiver crianças na sala, doces criaturas que não merecem ser atemorizadas, mande-as fixarem seus inocentes olhos durante um minuto na rodela branca no centro do ovo e depois olharem firme para uma parede branca. Pronto, o ovo estará branquinho e elas poderão permanecer alheias à situação atual que enegrece seus futuros.

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