Revelando os truques por detrás das mágicas, o ‘‘Mister M’’ do ‘‘Fantástico’’ revela-se um grande estraga-prazeres: na tela da maior fábrica de fantasias do país, detrói o prazer da ilusão criada pelos mágicosEm busca de audiência e lucros, a Rede Globo se esforça para chatear ao máximo o próximo. Aliás, parece uma competição; a estratégia das emissoras de televisão para atrair público é centrada - com as raras e compadecidas exceções - na chateação. Disputam para ver quem consegue acrescentar mais mau-gosto às suas iscas. Stanislaw Ponte Preta é quem tinha razão: televisão é mesmo uma máquina de fazer doidos.
A exibição do quadro do ‘‘Mister M’’ no ‘‘Fantástico’’ é uma dessas iscas. O personagem interpretado pelo mágico norte-americano Leonard Montano é um chato, um estraga-prazeres que prejudica a classe dos mágicos com uma fórmula basbaque: demonstrar que o mágico, na realidade, não serra a moça ao meio.
É patético e perigoso. Elimina a fantasia, desmonta a estrutura escondida por detrás de truques que são um prazer de se ver. A Globo, uma fábrica de ilusões é contra o prazer da fantasia? Não, a mensagem implícita é pior: também deve ser deles o monopólio da diversão. O perigo está na destruição da profissão de mágico. Segundo a recém-criada ‘‘Associação dos Mágicos Gaúchos Vítimas do Programa Fantástico’’, as revelações do quadro do ‘‘Mister M‘‘ já está criando dificuldades para os profissionais da área. A profissão de mágico é regulamentada por lei no Brasil; nada a ver com as mágicas que nós, amadores, fazemos diáriamente para manter nossas profissões. A associação conseguiu a suspensão do ‘‘Mister M’’ neste último domingo, por meio de uma medida cautelar concedida pela Justiça. E promete lutar contra a Rede estraga-prazeres até a última pomba da cartola.Já em seus próprios segredos a Rede Globo não admite que mexam. No final de 98 engavetou um programa criado por Marcelo Tas, projetado para exibição no mesmo ‘‘Fantástico’’, que revela segredos da casa. O programa já estava pronto, com várias cenas gravadas. A idéia era revelar com humor o que se passa por detrás das câmeras, levar o telespectador para um passeio pelos bastidores e mostrar a construção da fantasia Global.
O ar inteligente e a suprema capacidade verbal de Pedro Bial no ‘‘Fantástico’’, por exemplo, se apóia no recurso do ‘‘tele-prompter’’, uma máquina acoplada na câmera do cinegrafista, onde o apresentador lê o texto que parece sair de sua cabeça no mesmo momento. O ar inteligente, Bial treina nos camarins. Em um programa, Marcelo Tas filmou pessoas na rua dando depoimentos ‘‘espontâneos’’ lidos no ‘‘tele-prompter’’. Fica evidente que com certos recursos até o Ratinho pode parecer inteligente..
Esse e outros truques da televisão seriam mostrados aos domingos por Marcelo Tas. Mas a Globo, ciosa de seus segredos, mandou Tas criar em outra freguesia - está agora na TV Cultura - e cancelou o programa.
Existem também outros segredos onde ‘‘Mister M’’ nenhum põe a mão. Nem vamos falar no sentido oculto por trás das frases do Jornal Nacional. Mas o ‘‘Mister M’’ poderia revelar, por exemplo, quais sãos os truques utilizados pelo senador Antonio Carlos Magalhães para sua onipresença - só o William Bonner consegue a mágica de aparecer mais - nos telejornais da Rede. Ou o que a Globo guardou para si - os segredos, os segredos - das ilusões do Plano Real. E da ocultação das manifestações pelas ‘‘Diretas Jᒒ. Há o fantástico desaparecimento da denúncia da compra de votos para a emenda da reeleição. Tem também o sumiço da oposição - não era vista nem serrada ao meio - nos jornais da Rede nas últimas eleições. E, se quiserem truques mais antigos, tem os da Time-Life no início do que é hoje a Rede Globo. É uma profusão de segredos na cartola televisiva.
Acho que a ‘‘Associação dos Mágicos Gaúchos Vítimas do Programa Fantástico’’ deve reconsiderar sua posição e permitir a reaparição de ‘‘Mister M’’ no domingo da Globo. Com a condição de que, além de mostrar o que há por trás das mágicas, ele passe a revelar truques e segredos que criam ilusões nada divertidas para os brasileiros.

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