Jota
O humorista Luis Fernando Verissimo tinha uma personagem muito engraçada, que criou para satirizar o descrédito dos brasileiros com o governo Figueiredo (1979-1985). Na crônica de Verissimo, apenas uma pessoa acreditava no governo do último dos generais do Regime Militar. Tratava-se de uma senhora, já avançada em anos, moradora da cidade paulista de Taubaté. Era conhecida como a velhinha de Taubaté.
Ninguém sabe onde anda aquela doce e ingênua macróbia, suporte final de João Baptista Figueiredo, o que preferia cheiro de cavalo ao de povo e terminou perdendo a cabeça no final de seu governo e por isso nem passou a faixa para seu sucessor, o literato José Sarney. Verissimo nunca mais falou dela, nem lhe foi perguntado.
O FHC anda necessitado dela, colega Verissimo. E como a velhinha de Taubaté aceitava sem críticas as maiores barbaridades do governo Figueiredo, certamente pode vir a ter a maior confiança nas idas e vindas - sem falar nos atalhos - do bipresidente Fernando Henrique Cardoso.
Levando-se em conta a boa estampa do marido de dona Ruth - culto, elegante, homem que fala várias línguas aqui e no exterior - e tirando de lado sua propensão em perseguir viúvas e aposentados, não será difícil conquistar a confiança da velhinha de Taubaté que, afinal, apoiou até o Figueiredo, homem não muito afeito às boas maneiras, para dizer o mínimo; o general era sujeito chucro mesmo, daqueles que quando ouvia falar em cultura podia até puxar o revólver. Na época corria na boca do povo uma história sobre um incêndio em sua biblioteca. Diziam que o fogo queimara dois livros e um deles Figueiredo nem havia acabado de colorir.
Está certo que a vasta cultura de FHC não tem enchido a barriga de ninguém, mas a fachada do nosso presidente certamente deverá ser do agrado da velhinha de Taubaté. Mais do que um Nizan Guanaes ou qualquer outro marqueteiro, essa inocente criatura pode ser a redenção da credibilidade do governo tucano.
Os sinais de queda já podem ser sentidos, entre um e outro comercial do governo. Quando os apresentadores de telejornais da TV Globo, colegas do jornalista Roberto Marinho, começam a fazer ironias com o governo, é o aviso - top de oito segundos - de que urge a hora da entrada em cena da velhinha de Taubaté. E se até o Arnaldo Jabor - a velhinha de Taubaté do primeiro mandato de FHC - não acredita mais na suprema infalibilidade do mestre tucano da globalização, então se torna mais urgente ainda a reaparição da imortal criação de Luis Fernando Verissimo.
E a respeitável senhora já deve chegar levantando a moral do governo. Podia se deslocar até Bauru, também no estado de São Paulo, e declarar em entrevista coletiva para a imprensa que ela, a inefável velhinha de Taubaté, acredita no raio de Bauru.
Jota
PARANÓIA S.A.





