Jota
Já que temos poucos problemas para ocupar o nosso tempo, o bipresidente Fernando Henrique Cardoso lançou uma nova questão para os brasileiros. Em inflamado discurso, com aquela retórica que deseja parecer sutil mas está mais para coice de mula, nos fez colocar a cachola para funcionar e descobrir quem é o Joaquim Silvério dos Reis da cena política brasileira recente.
O Joaquim Silvério dos Reis da história foi o delator que levou à prisão o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um dos poucos heróis de verdade entre o monte de supostos salvadores da pátria que enfiavam em nossa cabeça na escola. A Coroa portuguesa esmagou a Inconfidência Mineira em 1789, Tiradentes foi enforcado e o nome Joaquim Silvério dos Reis virou sinônimo de delator; um insulto com uma carga pejorativa equivalente ao de Judas, que entregou Jesus Cristo.
Muito interessante o exercício que FHC reservou para todos nós. Deixemos de lado o desemprego, a tragédia do câmbio financeiro, o dólar nas alturas, a inflação e tantos outros assuntos menores e nos debrucemos sobre esta instigante tarefa.
O recado na fala de FHC foi bem dado. Tem muita gente cuja corda na mão é de Silvério dos Reis e não de Tiradentes. Não têm a coragem de enfrentar os problemas e buscam refúgio na falsidade, buscando ginásticas mentais para fazer de conta que estão fazendo, ele disse, no discurso de inauguração de uma escola no Espírito Santo.
DA SÉRIE: FRASES CÉLEBRESSomos bons ouvintes e este não é um caso de meias palavras; houve tanto exagero no insulto dirigido ao governador Itamar Franco que até os aliados do governo discordaram do nosso frasista presidencial. A comparação com o delator de Tiradentes não encaixa nem à marretadas no perfil de Itamar Franco. Aliás, é uma dificuldade definir Itamar, político de personalidade que daria muito trabalho até para o velho Sigmund Freud, pai - e mãe também, por que não? - da psicanálise.
E nem o deslize gravíssimo de sua aliança - do Itamar, não de Freud - com Fernando Collor pode forçar o encaixe da carapuça de traidor no governador de Minas Gerais. Itamar Franco redimiu-se na sua passagem pela presidência da República, apesar de algumas burradas. E aí está FHC para não nos deixar mentir.
É uma tarefa insana descobrir quem é o nosso Joaquim Silvério dos Reis atual. A qualificação é tão pesada, que não se aplica nem a FHC. Mesmo o nosso bipresidente tendo delatado os governos de Minas e Rio Grande do Sul para a Coroa, ou melhor, para os organismos financeiros internacionais. FHC está mais para uma figura recente da nossa história.
Ele é o Sarney. Já vejo, acima dos lábios do nosso bipresidente, o surgimento gradual daquele bigode característico do ex-presidente José Sarney. E sempre que vejo FHC discursando, emitindo ao vento aquele monte de palavras que não se transformam em ações, sinto que ele está cada vez mais preso apenas à liturgia do cargo, sina dos presidentes que se transformam em Sarney.
Até mesmo o esforço para se manter no poder - inoperante, mas poder - é semelhante. Um distribuindo favores para conseguir cinco anos de mandato, outro fazendo tudo pela reeleição. Observem bem a pessoa de FHC e me darão razão: perceberão o bigodinho solerte à espreita, surgindo entre uma frase e outra. Continuando assim, FHC vai terminar sua vida política disputando eleição para senador. No Amapá e tendo como adversário o ex-Sarney.





