Enquanto a crise samba à vontade - agora acompanhada da ginga de uma parceira boa de dança, a inflação - os esforços do governo do bipresidente Fernando Henrique Cardoso estão concentrados na sabatina obrigatória que o senado faz com o indicado a presidente do Banco Central. Para que Armínio Fraga passe sem nenhum susto pelo crivo dos senadores da oposição está valendo até desculpas de economista famoso.
Para ser aprovado na tomada de lição dos excelentíssimos senadores da nossa República, todos sabem, não é preciso fazer o dever de casa. O nome indicado pelo bipresidente já chega à casa praticamente diplomado, para uma bateria de perguntas que - tirando um ou outro senador fracassomaníaco - parecem atender mais às exigências de um ritual obrigatório do que ao dever de fiscalização daquela casa.
Porém, o advento da política de ‘‘presidente instantâneo’’ para o Banco Central, inaugurado pelo governo com o advento de Francisco Lopes, o breve, perturbou este compadrio entre o executivo e o legislativo. Agora até senador das bases do governo vai ter que se esforçar um pouco mais para evitar o risco de surgir um ‘‘Paul Krugman’’ mais enfezado, desses que não pedem desculpas facilmente.



Sempre no afã de colaborar com o governo - que não me tachem de fracassomaníaco - tomo a liberdade de sugerir aos excelentíssimo senadores alguns cuidados para que não pairem dúvidas sobre nome do indicado ao cargo cobiçadíssimo do Banco Central. Com algumas medidas simples, até a oposição pode concordar que o galinheiro finalmente estará em boas mãos.
1 Não se esqueçam de perguntar se o distinto cavalheiro entende de mercado financeiro, jogatinas com o dólar, essas coisas. Parece uma questão tola, mas vossas excelências se esqueceram de perguntar isso ao economista Francisco Lopes e deu no que deu.
2 É fundamental que alguém exija a confirmação cabal da dispensa dos serviços de Armínio (desculpe qualquer coisa) Fraga pelo seu patrão, o megaespeculador George Soros. É indispensável um exame completo no holerite e na carteira de trabalho, com vistas rigorosas nos carimbos e assinaturas.
3 Também é bom esclarecer como foi a adaptação da excelsa figura do economista ao seu novo ambiente de trabalho nesse ‘‘período de experiência’’ no Banco Central. Como vai sua relação com os colegas de trabalho, se a piscina do clube de recreação dos funcionários é de seu agrado, essas coisas. O que menos precisamos neste momento é de um presidente de Banco Central com um mau relacionamento na empresa. Pode afetar de modo negativo o mercado financeiro.
4 Checar o tempo de validade da garantia do prezado e ínclito economista. Neste caso o governo FHC também deve ajudar. Presidente de Banco Central bom deve ter no mínimo seis meses de garantia, senão não há mercado que aguente.
Tomadas essas precauções, o assento desejadíssimo do Banco Central pode permanecer quente até que os especuladores internacionais visualizem outro alvo e parem de maltratar a moeda que fazia do nosso presidente o mais bem-humorado deste mundo globalizado. Moeda agora protegida dos especuladores por um ex-colega devidamente sabatinado. Mas, para não haver absolutamente nenhum risco nesta sabatina, o ideal mesmo seria baixar uma medida provisória e determinar que a inquirição de Armínio Fraga seja feita exclusivamente pela Tiazinha, de chicotinho na mão e tudo. As perguntas dela são bem fáceis e mesmo as respostas erradas proporcionam um grande prazer ao felizardo que não fez a lição de casa. Garanto que com a Tiazinha, as desculpas serão desnecessárias.
Jota









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