Jota
Das coisas inevitáveis da vida, as frases do ano são as mais difíceis de se esquivar. A menos que o leitor não tenha o hábito de manusear jornais e revistas, deixando de ser, neste caso, um leitor. E nem o mais completo distanciamento das palavras escritas em papel manterá a pessoa - neste caso um não-leitor - livre das frases do ano. A televisão fará o serviço ou então um amigo se incumbirá de lembrar pelo menos uma... frase do ano.
Isso me faz lembrar uma história que um informante nosso de Brasília ouviu em primeira mão - antes de qualquer grampeador telefônico. É uma pequena cena entre um mandato e outro.
1999: O ANO DO
BUG DO MILÊNIO
Saindo do Palácio do Planalto para as confraternizações de Ano Novo, o presidente FHC se despediu de um assessor:
- Feliz Ano Novo, disse FHC.
- Mas, presidente - perguntou assustado o assessor -, o senhor não vai assumir o segundo mandato?
E fecha o pano. É difícil, até os dólares - tratados à pão de ló e com juros de Maracanã - estão caindo fora. Vamos acabar ficando só com o FMI. Mas voltando às frases, se vocês acreditavam que ficariam livres delas se concentrando nesta página, se enganaram.
Não vou publicar aquela lista imensa - tem uma revista semanal que fez 15 páginas (sic), sobrou espaço até para frase da emergente social Vera Loyola - pois sei que vocês não estão aqui para isso. Mas tenho que falar de pelo menos duas. Nenhuma delas é de FCH, o bipresidente, por que é difícil pegar uma frase do homem. Quando ele não pede para que a esqueçamos, afirma que nunca disse tal frase. E ainda era pior no tempo em que ele falava pela boca do ministro Sérgio Motta.
A frase do ano é de Jamelão, sambista da Mangueira e ídolo de nove entre dez apaixonados por canções que falam de dor-de-cotovelo, isso porque o décimo, de porre, não tinha condições de opinar. Com a acuidade de um cronista político, Jamelão observou o presidente Bill Clinton em visita à Mangueira, aliviado com a rápida trégua no caso Monica Lewinsky, e concluiu: O homem está feliz como pinto no lixo. E fecha aspas.
A outra frase emblemática do ano define com precisão o modelo de república dos tucanos. Saiu da boca de um falastrão. É uma frase crítica, que expõe, mais que isso, desnuda a política do governo FHC. E não é de nenhuma cassandra opiniática. Foi Gustavo Franco, presidente do Banco Central, quem afirmou de boca cheia: Com a recessão, as empresas brasileiras enfrentarão problemas, ficarão mais baratas, e por isso aparecerão grupos multinacionais dispostos a comprá-las, com propostas irrecusáveis.
Essa você vai ver em poucas seleções de frases por aí, por motivos óbvios. Mas é a frase do ano. Daqui a pouco o FHC estará pedindo para esquecerem também o que o Gustavo Franco anda falando.
Jota





