Jota
Falar ao telefone hoje no Brasil deixou de ser algo simples. Está quase virando um caso de segurança nacional. Apesar do progresso tecnológico - ou por isso mesmo - manusear o aparelho requer muita habilidade e principalmente tato. O questão não é mais o telefone dar linha; o problema é que muitas vezes esta linha está aberta à muito mais do que as quatro orelhas dos dois dialogadores telefônicos.
O negócio é tirar o dinheiro da poupança, esquecer aquela transação com ações e investir em grampo. É o que está dando mais dinheiro e poder na praça. Junto com a dor de cabeça para tucanos que abrem demais o bico ao telefone.
Atendendo ao apelo do bipresidente FHC, resolvemos ajudar os usuários do serviço a se entenderem melhor com este aparelhinho indiscreto e causador de problemas. Apresentamos umas normas simples - até mesmo para tucanos - de serem seguidas, que podem evitar muitos dissabores e perdas de bocas boas como o Ministério da Produção.
Leia atentamente e siga as instruções. É uma garantia para que suas conversas não sejam divulgadas em rede nacional de televisão antes do horário da novela.
Fale ao telefone somente o indipensável. Chamar táxi, pedir pizza ou conversas erótica no 0900.
Nas conversas com amigos, ao se referir de modo depreciativo a alguém, coloque sempre um adendo benigno. Por exemplo, quando disser que fulano é um babaquinha, sempre deixe claro que ele é um babaquinha no bom sentido.
Para negócios relacionados à privatização use um sistema antigo e confiável: o moleque de recados. Na falta de um, substitua por um deputado. Mas alerte-o para que não fique contando bravatas nos corredores.
Na formação de grupos para arrematar estatais confie apenas no pombo-correio. Mas capriche no treino do bicho para que ele não pare no caminho para bater papo com os frangos do Maluf.
Contatos com fundos de pensões somente depois da meia-noite, cercado de cuidados e entrando - é claro - pelos fundos.
Contatos com multinacionais somente através de sinais de fumaça. Aliás, este será um gesto muito bem visto por estes queridos investidores, que imaginam os nativos detendo sempre apenas este tipo de tecnologia.
Mesmo com todas essas precauções, porém, a prudência pede - implora, exige - que você visite várias vezes durante a noite certos viadutos brasileiros frequentados pelo general Cardoso, chefe da Casa Militar da Presidência. Com sorte, você encontrará as gravações das suas conversas antes que elas cheguem à imprensa.
Jota





