José Resende expõe oito esculturas em SP
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terça-feira, 05 de outubro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 06 (AE) - As oito esculturas que José Resende mostra, a partir de amanhã (07), na Galeria Camargo Vilaça, em São Paulo, marcam definitivamente a maturidade do artista, a unificação de Resende com os objetos de uma experiência ligada ao projeto moderno, que colocou nas mãos dos artistas, desde Tatlin, a responsabilidade pela construção de um mundo novo. Unindo a tradição construtiva e o racionalismo cubista, Resende parte de um conceito empírico de espaço para chegar ao real, mais ou menos como acontecia - em outra perspectiva - com os metafísicos.
A prova mais marcante dessa exposição é uma peça cilíndrica de gesso e câmara de ar de borracha, que remete automaticamente aos furos de Lucio Fontana na tela para criar uma nova espacialidade. Resende encheu bexigas de borracha com água para moldar os buracos no gesso, retirou-as quando o gesso secou e sobrou uma câmara que atravessa a peça como uma linha sem rumo, mas viva. Por ironia, ela só vai manter sua existência se o comprador lembrar, de vez em quando, de encher a câmara de ar.
A exposição também marca o retorno de Resende às peças de pequeno formato, que exigem maior concentração. Numa delas, um cilindro de vidro com pouco mais de meio metro de altura, a parafina adquire a forma dos relevos de seu amigo Sérgio Camargo. A linha, dessa vez, é traçada por um fio de aço plastificado. Não é limite, mas mediação entre materiais comunicantes como o vidro e a parafina. Tudo, nessas esculturas, está relacionado. O vidro responde pela conformação da parafina e esta pela nova aparência do vidro, numa contínua permutação de sentido. Nas alturas - Também por ironia, as peças "aéreas" de Resende, maiores, foram instaladas no andar térreo da galeria, que ganhou um labirinto de caixas de papelão em que Resende explora o espaço arquitetônico da casa. Essas peças são a antítese de Calder. Sua origem pode estar no "pássaro" de Brancusi - mais exatamente, na vocação ascensional de sua escultura - assim como na utópica torre de Tatlin para a Terceira Internacional (1919/20), que teria o dobro da altura do Empire State e iria girar em torno de seu eixo uma vez por ano.
Resende revela que o medo de altura o fez conceber tais peças. Essa conquista do espaço aéreo não persegue o monumental. Mesmo em peças anteriores como "O Passante ou a sua Vênus" de aço (apelidada pelos cariocas de Negona), a questão central é flexibilidade (como em Tatlin), não o tamanho da peça. "Não é a situação geográfica que torna uma obra pública", observa Resende. De fato, é até possível imaginar numa praça uma peça como a escultura feita de cabo de aço e bolas de vidro com parafina, mas ela perderia o impacto vertiginoso num espaço público. "Ela foi concebida como um trapézio, porque, como disse, tenho horror de altura". Poética do ar - Como o americano Richard Lippold, Resende quer abraçar o espaço, envolver o ambiente com fios e formas que revelam uma poética singular na escultura brasileira, exigindo uma chave fenomenológica para sua interpretação. Em síntese, é uma obra resistente à redução curatorial. "Analisando o que tenho visto em exposições coletivas e em bienais, acho que a produção contemporânea é mais marcada pelo poder curatorial do que propriamente pelo mercado", diz. "Não diria que há uniformidade na produção, mas a repetição do enfoque responde por certa equalização". Serviço - José Resende. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, até 14 horas. Galeria Camargo Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 210-7066. Até 1.º/11.


