São Paulo, 07 (AE) - O poeta José Nêumanne Pinto lança amanhã, no Fórum Fnac de Pinheiros, o CD "As Fugas do Sol". A poesia na voz do autor - a produção fonográfica brasileira já o ousou, nos anos 60 e 70, a idéia desaparece com várias outras boas idéias, no marasmo cultural de duas décadas que nos acometeu, e a iniciativa volta neste fim de década, por desassombro do músico Marcus Vinícius de Andrade, diretor-artístico da gravadora CPC-Umes. É ele quem faz a música do disco. Não música fundo musical, como esclarece no texto de apresentação de "As Fugas do Sol", ou mera sonoplastia, mas música que pretende inserir-se no diálogo poético, interagindo com o discurso verbal.
"As Fugas do Sol" é o segundo disco de poesia do CPC-Umes. A estréia foi com Mário Chamie ("Caravana Contrária") e outros lançamentos estão programados. José Nêumanne é jornalista, editorialista do "Jornal da Tarde" e colaborador da página de Opinião do "Estado". É um amante da música brasileira, que ouve com atenção e emoção, nunca superficialmente, e da poesia, que pratica talentosa e emocionadamente. Tem a bela voz grave cantante dos nordestinos.
Nasceu em Uiraúna, na Paraíba, e chegou a Pernambuco via Campina Grande - em terras pernambucanas conheceu o nativo Marcus Vinícius e amizade de músico e poeta alimentou-se de Baudelaire e João Cabral, Joyce e Augustos dos Anjos, Pixinguinha, repentes, violas, boemia. O encontro deles em disco traduz essa intimidade. "Eu me encantava ouvindo os violeiros, seus repentes, seus desafios, à noite, na casa do meu avô, onde nasci; esta é a primeira vertente da minha poesia, vertente da oralidade, do improviso, a vertente da poesia nordestina que está presente nos próximos poemas", anuncia, no disco, lançando mão da chave utilizada por Ariano Suassuna (figura de veneração de Nêumanne) em seu disco de poemas "A Poesia Viva de Ariano Suassuna - Música de Antônio Madureira" (gravadora Ancestral).
Mas há diferenças entre um trabalho e outro. Ariano anuncia cada poema com uma fala que o situa; Nêumanne prefere anunciar blocos, grupos poéticos que afinem por certas circunstâncias. A diferença maior, contudo, está no fato de a música de "As Fugas do Sol" ter sido feita especialmente para a gravação do disco. Talvez seja a primeira vez que esse capricho é realizado.
Marcus Vinícius compôs para a poesia e a voz de Nêumanne. Os 30 poemas reunidos no disco foram escritos nos últimos 30 anos, alguns deles extraídos do recente livro Barcelona, Borborema - poeta e músico esclarecem nordestinidades de uma, espanholismos arábicos de outra: "Qual Fernando, de Espanha,/ João não chamou testemunhas/ para só crer em si./ Quando falou,/ Não comparou,/ Não traduziu/ Seu robusto amor cigano/ na miséria das palavras" , diz Nêumanne, em Borborema 13. Separa as cidades, diz ainda, uma vírgula - "Uma vírgula entre a arquitetura de Gaudí e o forró de Campina Grande." Ilumina o disco a generosa abordagem do mundo pela poesia: a busca de entendê-lo, para melhor amá-lo.
Serviço - "As Fugas do Sol". De José Nêumanne Pinto e Marcus Vinícius de Andrade. Amanhã, às 20 horas. Fnac. Avenida Pedroso de Moraes, 858, em São Paulo, tel. (011) 867-0022.

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