José Nêumanne

O gigante e o nanico

Reprodução Ariano Suassuna é tido como um intransigente incorrigível. Seu combate a favor das manifestações artísticas populares e contra manifestações de vanguarda estética não deixam dúvida quanto a suas posições conservadoras - seja como escritor de renome, seja como administrador das políticas culturais no Estado onde vive, Pernambuco. Por isso, uma declaração recente dele ao repórter e poeta Pedro Bial, em programa de entrevistas da Globonews, chega a surpreender pelo alcance que tem e pela flexibilidade que demonstra.
Cercado pelos belos azulejos coloniais de sua casa em Recife, o autor do Auto da Compadecida falou de sua admiração pelos romancistas russos do século passado, especialmente Dostoievski. O repórter, com muito tato, lembrou ter o entrevistado sido várias vezes acusado de xenofobia, perguntando, em seguida, se ele não citaria, entre seus escritores favoritos, nenhum estrangeiro contemporâneo. ‘‘Depende do que você entende por contemporâneo’’, respondeu Ariano. ‘‘Admiro muito Albert Camus’’.

ReproduçãoAlbert Camus e Jean-Paul Sartre: ambos se aproximavam pela fulgurante inteligência, mas se distanciavam pela forma de encarar o mundoE disse ainda mais, ao não reconhecer termos de comparação entre Albert Camus e Jean-Paul Sartre, seja como pensadores, seja como prosadores. De certa forma, chegou a insinuar que nem as vidas pessoais dos dois maiores expoentes do pensamento europeu no pós-guerra poderiam ser comparadas, em benefício do primeiro. Se a memória deste escriba não estiver sendo traída pelo excesso de admiração por um e pelas desconfianças em relação ao outro, o ilustre paraibano chegou ao ponto de estranhar não ter o povo que produziu Camus o admirado à altura, até mesmo preferindo seu amigo de antes, que, depois, virou desafeto.
Não deu para ficar sabendo se o secretário de Cultura do governo de Miguel Arraes tem noção exata disso, mas, de certa forma, ele tocou num ponto crucial no debate cultural deste nosso século de luzes e trevas. Não se desconhece a importância das discussões travadas por Camus e Sartre nos cafés De Flore e Les Deux Magots ou na Brasserie Lipp, em Saint Germain-des-PrSs, quando eram reconhecidos como os papas do existencialismo, e depois, quando o marxismo os separou. Só que até agora não se fez um inventário a respeito de causas e efeitos das idéias em debate naqueles encontros memoráveis que repercutem há quase meio século.
Camus foi patrulhado, humilhado e ofendido por conta de suas posições tidas como politicamente incorretas, mas estava certo em praticamente todas. Sartre foi endeusado, bajulado e venerado por pensar de forma oposta a ele, mas isso não o impediu de quase sempre haver incorrido em equívoco. Nem é o caso de insistir aqui na bobagem de Sartre recusar o Prêmio Nobel de Literatura e criticar Camus, que o recebeu. E, acima de tudo, o mereceu.
Camus, em sua Argel natal, condenou o terrorismo, mesmo por uma boa causa (compondo a famosa sentença, na qual dizia preferir a mãe, que poderia ser vitimada por uma bomba na rua, a qualquer critério de justiça). O romancista de O Estrangeiro atacou pelo lado certo um problema que ainda hoje nos afeta e aflige, ferindo e matando em profusão. Foram disparados contra ele anátemas ideológicos de todos os tipos. Nem por isso ele deixou de apresentar críticas bem fundamentadas contra o dito socialismo real, que muitos pretenderam circunscrever, por comodismo, má-fé ou pelas duas coisas juntas, à barbárie instituída por Stalin na ex-União Soviética.
Enquanto isso, serviçal do marxismo, o autor de A Náusea elegia Mao Tsé-Tung como grande guru, não apenas dele e de seus discípulos e amigos, capitaneados por Simone de Beauvoir, mas também dos jovens universitários, entrincheirados no Quartier Latin. Hoje, manifestantes levantam cartazes pedindo ‘‘direitos humanos agora’’ na China herdada de Mao pelo presidente Jiang Zemin, em sua visita à jaula do cada vez mais rico e poderoso ‘‘tigre de papel’’. Apesar de não servirem para despertar a consciência do mundo livre nem amainarem a ganância comercial do próspero Hemisfério Norte, tais manifestações na potência hegemônica exibem por si sós o monumental equívoco sartriano, que, em sã consciência, não devia ter servido de roteiro para nenhuma pessoa sensata e inteligente.
Entre Sartre e Camus havia, pois, diferenças mais relevantes do que as físicas, que separavam o primeiro, um quasímodo feio e assexuado, do segundo, uma espécie de Humphrey Bogart cultural. Se ambos poderiam ter sido aproximados pela fulgurante inteligência ou pelo brilho no manejo da língua de Voltaire e Moliere, se distanciaram pela forma de encarar o mundo. Sartre cortejava para ser cortejado. Já Camus ousava pensar com a própria cabeça. Esta dicotomia ultrapassou o tempo e o espaço de seus debates filosóficos e literários, valendo ainda hoje como valia então. Os fatos da história implacável têm aumentado a estatura de Camus e tornado Sartre cada vez mais nanico.
José Nêumanne, jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde, fica sempre com Camus e, no caso, também com Ariano.

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