José Nêumanne



VIOLÊNCIA, MAS COM TERNURA

Não sou um fã ardoroso de ‘‘Cem Anos de Solidão’’. Espera aí, deixa eu me explicar. Não desgosto do texto nem acho fraco o romance famoso. Mas confesso uma certa queda por outros livros de Gabriel Garcia Márquez, como ‘‘O General em seu Labirinto’’, um romance histórico sobre a agonia final de Bolívar, e, principalmente, ‘‘História de um Sequestro’’, a melhor reportagem que já li na vida. Talvez a implicância com o romance considerado obra-prima, não só do escritor colombiano, mas de todo o chamado boom da literatura fantástica latino-americana deva-se justamente a uma certa tendência a não gostar de rezar a mesma ladainha dos demais, ou seja, um certo gosto escuso pela originalidade.
Mas, pensando bem, há outra explicação plausível. Após a leitura das maravilhas do clã Buendía, a tendência de minha pretensiosa turma era de que aquela fantasia, em matéria de fantástico, perdia, e feio, para a realidade sertaneja. Minha geração ficou devendo um livro, qualquer livro, que provasse isso. Mas vim, realmente, a ter a sensação de que Macondo poderia, de certa forma, ter habitado entre nós após a leitura rápida, entusiástica, num fôlego só, do segundo romance de Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, ‘‘Luz do Abismo’’. Trata-se de um romance, não de uma reportagem, portanto de uma obra de fantasia, não de um documentário sobre o absurdo nordestino. Mas, de alguma forma, o texto me remeteu àquele longínquo desafio.
Ao contrário do caudaloso romance caribenho de Garcia Márquez, a novela de Maria Cristina é curta e condensada, como um fio d’água perene, a percorrer os sertões. Mas desemboca em canyons monumentais, como aqueles do trecho final do Rio São Francisco, o Velho Chico, flagrados nos planos aéreos do filme ‘‘Baile Perfumado’’, outro produto recente da fértil e múltipla cultura pernambucana. Sua narrativa também revela maravilhas, embora tente segurá-las entre os dedos, de forma discreta, quase sigilosa, como determinam os códigos literários do pudor sertanejo.
Editado, quase clandestinamente, pela editora Bagaço, de Recife, o livro guarda a aparência gráfica dos volumes de genealogia, que povoam as estantes dos solares nordestinos. O sobrenome da autora autoriza a incursão pela aventura genealógica. Em Pernambuco, ou se é Cavalcanti ou se será cavalgado. Ela é Cavalcanti com ‘‘i’’ e, para completar, ‘‘de Albuquerque’’. Lido de supetão, o texto dá impressão de ter sido uma tentativa de desenhar a árvore de uma família, a própria, abandonada, um pouco por indisciplina, um pouco por afeto pelo leitor, que vai desenrolando seu novelo fictício com o desembaraço que não teria, se tivesse de acompanhar a complexa matemática sucessória dos clãs.
A autora é personagem, mas a narradora é sua tia Dona, cega e doida, acertando as contas com o destino, sem nunca perder a capacidade crítica nem o poder sedutor de sua vocação de Sherazade sertaneja. Ela se espanta com Chiquinha, expulsando de casa o marido bêbado e fracassado, Francisco Belota, cuja comparação com o irmão charmoso e elegante, Manuel Henrique, justifica o gesto tão inusitado como épico.
O leitor é amarrado à teia da narrativa por fios de cenas ridículas e constrangedoras, tornadas inesquecíveis pelas habilidades manuais da narradora. É o caso daquela em que o pintoso Manuel Henrique deixa a mulher, a intelectual e desleixada professora Mariquinha, após descobrir um exemplar de cocô de galinha debaixo do prato emborcado à mesa posta para o almoço elegante. A sequência do episódio - a escolha de uma bela e bem ataviada moradora para deitar em sua cama e pôr a mesa de forma adequada - é um exemplo impagável de verossimilhança, merecedor de figurar em algum tratado antropológico.
A sabedoria da vivência sertaneja é transmitida pela filósofa avó e, ao mesmo tempo, bisavó da narradora, Dona Maurícia. Um episódio é muito significativo. A matriarca contou a um grupo de meninas, suas descendentes, a fábula do sapo que vira príncipe. Mas o arrematou, com gravidade agridoce: ‘‘O mais comum é acontecer justamente o oposto. As moças colocam, em suas camas, belos rapazes. No instante seguinte, eles se transformam em cururus’’.
O caráter de dona Maurícia é descrito em outra pincelada magistral, aquela que dá conta de um artifício usado por ela para manter escravos a serviço, mesmo depois da inevitável penada da Abolição. Ela e o marido faziam registrar sua alforria em cartório, acrescentando que, livres, todos eles continuariam a serviço da família, no solar. O truque, digno de ser incorporado ao patrimônio do príncipe de Salina, protagonista de ‘‘O Leopardo’’, de Lampedusa, é a melhor amostra de como as elites têm legislado no Brasil, geração após geração: ‘‘Tanta violência, mas tanta ternura’’, como resumiu o poeta Mário Faustino, antecipando Che Guevara, em célebre verso citado por Glauber Rocha, na sequência final de ‘‘Terra em Transe’’.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista, escritor e editorialista do ‘‘Jornal da Tarde’’.

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