José (Jota)
O NOME DA
NOSSA GRAÇA
A assinatura do cartunista gaúcho Santiago. Para fugir de um nome como Neltair Abreu, um homem é capaz de tudo, até de se apossar do nome de sua cidade natalUma pergunta que ouço com frequência é por que Jota? Muita gente quer saber o significado do pseudônimo que uso para assinar os cartuns e que acabou tomando o lugar do meu nome, usado apenas para fins burocráticos. A resposta é simples. Todos esperam um grande significado mas é Jota simplesmente porque é a primeira letra do meu nome. E é a décima letra do alfabeto. E só.
Os cartunistas são danados para arranjar alcunhas bizarras. Os nomes escolhidos carinhosamente pelos nossos pais são descartados sem nenhuma piedade. E surge O Nani (abreviatura de Ernani), o Solda (sobrenome de Luiz Antônio Solda), o Demo (junção das primeiras sílabas de Demócrito Moura), o Redi (de Silvio Redinger), e outros seres de nomes estranhos. Vale tudo por uma voa graça. É bom que o nome seja curto, chame a atenção e não ocupe muito espaço no desenho. O desenhista uruguaio Hermenegildo Sábat assina simplesmente Sábat. Para o Hermenegildo, certamente faltaria espaço no desenho.
Poucos tiveram a felicidade do Ziraldo, que já nasceu com nome de artista. Jaguar chama-se Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe. Parece nome que vereador coloca em rua para enlouquecer o contribuinte. Quem passou a faca nesta verdadeira locomotica onomástica foi Borjalo - Mauro Borges Lopes na carteira de identidade - cartunista da geração anterior à turma do Pasquim.
Na década de 60 a revista Manchete fez um concurso para contratar novos cartunistas para substituir Borjalo, de mudança para a revista O Cruzeiro. No primeiro dia de trabalho, Borjalo disse que Jaguaribe não era nome de desenhista e determinou que o novo contratado da Manchete passasse a assinar Jaguar.
Millôr Fernandes já foi Vão Gogo, pseudônimo com que assinava suas páginas de humor na revista O Cruzeiro. Depois, notou em seu registro de nascimento que o cartorário havia se esquecido de cortar o t de Milton, seu verdadeiro nome. E estava feito: acrescentou o circunflexo e foi ser Millôr na vida. Com registro e tudo.
Henfil também teve um ditador em carreira. Foi na revista Alterosa, de Belo Horizonte, logo após o golpe militar de 64. Henfil ainda era Henrique Filho e ia publicar seus primeiros desenhos na imprensa. O editor da revista, o jornalista e escritor Roberto Drummond, estranhou o nome. Deve ter dado boas risadas da intenção do cartunista, que queria assinar seus desenhos como Henriquinho e decidiu: Você vai assinar Henfil. Hen de Henrique e Fil de Filho. Henfil resmungou mas topou. Mas uma maldição (prevista por Roberto Drummond) acompanhou Henfil até o fim da vida; muita gente o chamava de Rênfil, acentuando a primeira sílaba, quando o correto é pronunciar com h e acentuar a última sílaba.
Mas existe também o caso de artistas que não querem passar vergonha com seu nome verdadeiro. O cartunista Santiago adotou o nome de sua cidade natal, no interior do Rio Grande do Sul, para escapulir do nome Neltair Abreu e evitar o risco de que os leitores, ao invés de rir da piada, encontrassem humor no nome do autor. Não teria nenhuma graça para o cartunista.
Jota





