Jornalista torturado narra o horror da ditadura em "Memórias do Esquecimento"
Por Jotabê Medeiros
São Paulo, 04 (AE) - Logo após a eleição de Tancredo, o jornalista Flávio Tavares esperava um vôo no aeroporto de Brasília quando viu passar um velho conhecido, o coronel Epitácio. Estava com um amigo, também ex-torturado no regime militar. O amigo lhe disse: "Vamos pegar esse torturador!" Tavares olhou para o "velho decrépito que se arrastava pelo aeroporto" e disse: "Não, deixa para lá".
Foi difícil para Flávio Tavares dizer "deixa para lá" durante os últimos 30 anos. Preso e torturado entre 1967 e 1969, ele foi um dos 15 presos trocados pelo embaixador americano Charles Burke Elbrick em 1969 e exilado no México. Mas ele finalmente resolveu encarar o passado e amanhã (05) lança, na Livraria Cultura, em São Paulo, o livro "Memórias do Esquecimento", pela Editora Globo.
"A dor que eu tinha era tanto que primeiro eu esperei cicatrizar", disse Tavares. "Se eu tivesse escrito quando voltei do exílio, o livro não teria o amadurecimento que tem hoje e talvez eu não tivesse podido relembrar as torturas e as mortes, incluindo a minha", conta. Ele foi protagonista de um fuzilamento simulado. Mas um dos pontos de honra do livro de Tavares é abordar a tortura. "Duas coisas sempre foram tabu entre os ex-torturados: não falar da tortura e dos assaltos aos bancos", afirma. Ele diz que procurou relatar tudo.
Levou choques elétricos e passou o diabo nas celas do regime, mas afirma que não matou ninguém. "Foi uma guerra sem beligerância e com muita violência, mas eles nos quebraram e também saíram quebrados", considera o autor. Ex-militante do MAR, Flávio Tavares foi preso três vezes no Brasil. Na primeira, soltaram-no. Na segunda, foi libertado pelo Supremo Tribunal Federal. Na terceira, foi incluído na troca pelo embaixador americano, episódio que é narrado no livro de Fernando Gabeira, "O Que É Isso, Companheiro?", já transposto para as telas.
Em 1967, foi sequestrado no Uruguai, passando 28 dias vendado e algemado. "Quando estava no México, tinha a idéia de voltar para matá-los ou torturá-los, como fizeram comigo", diz. "Mas depois, nasceu meu filho, Camilo, em dezembro de 1971, e toda a raiva morreu em mim". Hoje, Flávio Tavares não faz nenhuma militância política. "Sou um cético, um crítico dos partidos e da política brasileira", diz. "Memórias do Esquecimento" é dedicado a Rubens Paiva. Serviço - "Memórias do Esquecimento". Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2073. Amanhã (05), 19 horas





