A batida policial no sobrado da Rua 34 com a Oakridge, em 14 de abril de 1933, levou às fotografias que ajudariam a gravar Bonnie Parker e Clyde Barrow no imaginário popular norte-americano - ela com seu 1,46 m, salto alto, saia longa, boina e espingarda; ele só uns 15 cm mais alto, de terno, gravata, chapéu e revólver na cintura. Com a chegada dos agentes do Estado do Missouri, o bando dos Barrow teve de deixar tudo para trás, inclusive armas e as folhas de papel preto em que Bonnie fazia poemas com tinta branca.
As fotografias eram suficientes para glamourizá-los, mas foi ''Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas'', o filme de 1967 com Faye Dunaway e Warren Beatty, que colocou o casal acima de Jesse James (1847- 1882) no ranking dos bandidos mais adorados dos EUA. Para escapar desse encanto, quando decidiu escrever o recém-lançado ''Bonnie & Clyde - A Vida por Trás da Lenda'' o jornalista Paul Schneider achou melhor resistir ao impulso de rever o longa.
''A influência do filme sobre a história deles é enorme. A maior parte dos depoimentos sobre os dois, feitos por amigos, parentes e vítimas, só apareceu depois da estreia do longa, quando os jornais procuraram essas pessoas. Ouvindo ou lendo testemunhos, é fácil notar como aquelas pessoas, embora acreditassem falar a verdade, estavam de certa forma reagindo ao que tinham visto no cinema. Muitos teriam relatado as coisas de modo diferente se não existisse o filme'', diz Schneider.
O jornalista destaca o aspecto fictício do longa: ''O filme diminui as vidas que eles destruíram. E, embora eles de fato tivessem estilo, não estavam tão limpos e saudáveis pouco antes de morrer. Estavam muito mais desesperados no fim.''
Fazia meses que o bando vivia dentro de carros roubados, de cidade em cidade, sem tomar banho nem se alimentar direito. Dias antes de morrer, Bonnie havia sofrido um acidente que lhe deixara a perna direita queimada do quadril ao tornozelo.
Uma das vítimas, Sophie Stone, conta que, ao ser sequestrada em Louisiana, reparou que Bonnie combinava um elegante vestido vermelho com sapatos da mesma cor, mas ''estava toda suja. Ela disse que estava morrendo de fome e perguntou se eu tinha preparado alguma comida naquele dia''.
Mas Bonnie de fato era ''uma mulher que seria notada numa multidão'', como relata outra testemunha. Nas pesquisas, Schneider chegou a detalhes que dão até mais charme ao registro das vidas deles - por exemplo, que Clyde tocava saxofone e tinha o instrumento no carro ao morrer, e que Bonnie era uma ''talentosa pianista''.
Schneider foi além dos depoimentos e dos volumosos arquivos do FBI para refazer a saga. O jornalista viajou por todo o Texas e arredores, onde também registrou histórias orais, viu arquivos de jornais e visitou presídios para reproduzir aquele cenário durante os anos pré e pós-Grande Depressão. Chegou a dormir no quarto do qual Bonnie e Clyde conseguiram escapar na batida policial de 1933.
Schneider também aborda rumores sobre a sexualidade de Clyde e a possibilidade de W.D. Jones e outros terem participado de vários esquemas de perversão, que parecem ter se originado bem depois da morte de Clyde e Bonnie.

SERVIÇO

■ Bonnie & Clyde -
A Vida por Trás da Lenda
Autor - Paul Schneider
Tradução - Lizandra
Magon de Almeida
Quanto - R$ 69,90 - 432 págs.

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