JORNALISTA FAZENDO HISTÓRIA
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Em entrevista à Folha2, Percival de Souza explica como estruturou o livro sobre Anselmo, fala de seu próximo projeto e funde jornalismo à investigação histórica
Grande reportagem, jornalismo investigativo, pesquisa histórica. Percival de Souza ainda não consegue definir o trabalho que vem realizando, mas sabe da sua importância. Está jogando focos de luz onde a escuridão, renitente, se estabeleceu.
Em seu apartamento, durante uma folga após o almoço, Percival de Souza conversou com a reportagem da Folha2, por telefone, sobre o livro Eu, Cabo Anselmo e seu próximo projeto envolvendo o delegado Fleury. Confira os principais trechos da entrevista.
Como o Cabo Anselmo surgiu em sua pesquisa?
Eu comecei com o projeto do livro sobre o Fleury, e conversando com pessoas soube que o Anselmo estava vivo, no Brasil, e talvez acessível. Era uma oportunidade única. As coisas aconteceram em doses homeopáticas, eu tive que ser muito paciente, eram muitas normas de segurança.
Você foi investigado pelo Anselmo?
Tenho certeza que ele procurou saber quem eu era e conhecer o meu trabalho para ver se era confiável. No primeiro contato pessoal eu já estava com um grau de expectativa grande, a coisa vinha rolando há meses. Nós jornalistas temos um estilo mais veloz, não nos conformamos em ficar parados. Eu me surpreendi com um sujeito magro, bem vestido, não tinha nada a ver com a minha fantasia de personagem. Esperava alguém mais desestruturado. Apareceu o contrário, era bem articulado e procurava explicar a si próprio. As conversas foram estudadas de parte a parte, ele foi muito seguro e muito tranquilo. Eu tentava camuflar a ansiedade. Falamos de assuntos genéricos até entrarmos no tema.
Qual foi sua estratégia?
Eu não sabia como ele estava vivendo, da cirurgia, da identidade falsa, de sua morada no Dops, da montagem de um aparelho falso que todos achavam de segurança máxima. Eu achei muito profundo, e sabia que precisávamos de pelo menos dez dias para tocar isso adiante. O segundo contato foi em janeiro de 1999, ele sugeriu o Nordeste e eu achei ótimo, era a terra dele e tinham ocorridos episódios importantes lá.
Como foi a convivência nesse período?
Antes disso eu precisava confirmar se ele era realmente o Anselmo. Então chamei um delegado que foi do Dops e se deslocou até Aracaju para reconhecê-lo. Depois teve o retorno do Anselmo ao vilarejo de origem, onde ele encontrou amigos, parentes, mãe adotiva, irmãs, foi cheio de emoções. Eu sempre achei interessante o jeito de trabalhar do Truman Capote. Ele procurava deixar o personagem à vontade, anotava o menos possível e memorizava bastante. No fim, anotava tudo em um fio condutor. Então passeávamos na praia, tomávamos cerveja, isso quebra o gelo, a relação fica mais espontânea. Quando fui para o definitivo, eu achava que seria difícil para ele explicar alguns pontos desta conversão súbita no Dops. Eu decidi fazer uma narrativa mais isenta até para conseguir mergulhar fundo, e a única maneira era tentar entender a cabeça dele. Eu deixei claro que seria uma narrativa objetiva, sem juízos de valor.
Qual a parte mais difícil?
Talvez a questão da mulher dele. Eu falei: seus contemporâneos de luta vão te odiar, vai ser terrível. Eu noto uma indignação com relação à mulher (Soledad, com quem Anselmo morou em um aparelho falso e que, posteriormente, morreu fuzilada em Abreu e Lima). Deu muito trabalho ir até o local das seis mortes. Ele não queria ir. Ninguém sabia onde era, até que recorri aos corretores antigos, com mais de 20 anos de profissão, e consegui chegar. Foi muito forte. Estávamos pisando o lugar onde as coisas aconteceram.
Como foi a repercussão do livro?
Uma pessoa me disse que ele era execrável, e que eu não poderia ter escrito sobre alguém assim. Eu falei que se eu estivesse há 50 anos atrás e surgisse a chance de fazer uma biografia de Hitler, eu faria. Eu não posso ser restritivo em relação ao personagem. Eu compreendo que há hoje um rancor muito grande em relação ao Anselmo, mas isso não cabe a mim. Eu narrei os fatos.
Você teve algum contato com o Anselmo após a publicação?
O Fantástico resolveu fazer uma matéria e precisaria dele. Acabamos nos encontrando no Rio de Janeiro. Ele acha que eu fiz um bingo, mas que fui meio cruel com o que ele pensava, nas interpretações. Mas de modo geral, ele achou que foi retratado. Não o iludi quanto ao formato do livro. O que ele tinha a dizer está impresso. E vou voltar a ouvi-lo para o livro sobre o Fleury. Ele me contou no Rio que, quando tudo acabou, os órgãos de segurança fizeram uma espécie de julgamento para eliminá-lo, e o Fleury bateu o pé para mantê-lo vivo.
O que todas essas informações representam para a história do Brasil?
Eu acho que abri uma caixa de Pandora de onde saíram segredos, males, desgraças, mas é uma contribuição muito importante para a história contemporânea porque revela acontecimentos da maior importância. Nós jornalistas somos cobrados para fazer história, e vários têm feito muito bem. Essa história, até aqui, vem sendo contada pelos perdedores. Se produziu até aqui uma literatura, vamos dizer, engajada. Com o Anselmo foi um aprendizado para chegar no Fleury. Foi talvez o momento de minha vida em que tive maior isenção.
Como está seu novo livro? Você já está finalizando?
Acho que vai ser um livro mais contundente. Eu estou escrevendo, falta ouvir umas cinco pessoas. Espero que consiga escrevê-lo até abril, em um regime de dedicação exclusiva. No segundo semestre será lançado.
Você acha que o jornalismo investigativo voltou a ganhar espaço na imprensa?
O jornalismo investigativo exige a necessidade de um espaço maior. A matéria sobre o Anselmo publicada na Época foi um recorde de 18 páginas, que para o tamanho do assunto não significou muita coisa. Em vista disso, a gente precisa encontrar um nome para esse tipo de trabalho. É investigativo, grande reportagem ou histórico? É um estilo que ajuda a fazer história.
Como é escavar os porões da ditadura?
Os porões têm muito segredo. É uma coisa dolorosa, chocante, trágica, horrível, mas eu entrei um terço dentro dos porões. Isso me deixou animado como autor, é uma pequena catarse com o ato de escrever, é emocionalmente muito forte. O novo livro vai ter uma contextualização incrível. Não sou cabotino, não será uma biografia. Não estou preso a arquivos ou livros publicados. Eu apresento por intermédio de um leque grande de sobreviventes muitos detalhes e fatos novos.





