JORNALISMO - Reportagem investigativa SOB SUSPEITA
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segunda-feira, 08 de outubro de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O jornalismo investigativo no Brasil ainda é um café com leite morno que divide espaço na mesa com um biscoito fino - a pretensão de levar ao público serviço, modismo que ocupa tanto as revistas de fofoca como os grandes jornais.
O óbvio ainda não puxou a cadeira em muitas redações: que o leitor poderá migrar para outros produtos que ofereçam um cardápio de matérias e reportagens quentes ou pelo menos no ponto, levando em conta não só o rigor da apuração, mas também de investigação.
A discussão frequenta a mesa de jornalistas como José Roberto de Toledo, um dos fundadores da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e, atualmente, coordenador de cursos e projetos da associação.
Ele trabalhou 13 anos na Folha de S. Paulo, sendo hoje diretor da PrimaPagina, uma produtora de conteúdos online, que alimenta portais, como o Terra, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), ONU, e agências de notícias, entre as quais a Lusa.
Toledo também é co-editor de ''Era FHC - Um Balanço'' (Editora Cultura) e de ''Marketing Político e Persuasão Eleitoral'' (Konrad Adenauer). ''O jornalismo de modo geral evoluiu, mas ainda tem muito a avançar. Estamos presos a um jornalismo de serviço, mas pode avançar em termos de investigação, que acredito ainda é como café com leite no Brasil'', afirma Toledo, que realizou um curso para jornalistas da Folha de Londrina, com o tem: ''Jornalismo Investigativo e Programas de Georeferenciamento''.
Ao comentar sobre a evolução do jornalismo, Toledo compara com o livro lançado pela Abraji, ''50 Anos de Crimes - Reportagens Policiais que Marcaram o Jornalismo Brasileiro'' (Record), que demostra a escalada do jornalismo em direção à evolução.
A falta de investimento em reportagens investigativas, o que torna as edições um café com leite morno servido aos leitores diariamente é preparado em todas as editorias, não restringindo ao previsível meio político e econômico.
Toledo exemplifica ao ressaltar que, atualmente, uma das maiores fontes de financiamento é a Lei Rouanet. ''É uma lei que precisa ser mais fiscalizada. Existem muitos projetos culturais bons e outros sem interesse público'', completa o jornalista, puxando a sardinha para a cobertura também dos cadernos de cultura.
A evolução do jornalismo é amiga íntima da revolução tecnológica e os jornalistas devem entrar para esse clubinho, aprendendo e incorporando novas tecnologias no trabalho, com o risco de serem suplantados pelos blogueiros - uma vizinhança que cada vez mais prolifera ao lado do jornalismo.
Ele ilustra essa previsão ao destacar que há dez anos, antes da internet se tornar mais acessível a um maior número de brasileiros, os jornalistas detinham o monopólio da informação.
''Hoje não preciso nem dizer que todo mundo virou um 'publisher', com os seus blogs. Temos que pensar maneiras de não nos tornarmos iguais aos amadores'', compara Toledo, apontando que independe de experiência, muito menos de fatores divinos ou genéticos, quem sabe de um poder que alguns poucos jornalistas detêm, já que a utilização da tecnologia é uma técnica, que exige trabalho, dedicação e vontade de aprender.
A fronteira do gênero investigativo é telhado de vidro, que pode quebrar com facilidade, expondo um flagrante de falta de ética. Alguns defendem que, em alguns casos, a utilização de câmeras ocultas pode esbarrar na vida privada.
A questão pode ser ilustrada com a polêmica em torno das imagens do ''Jornal Nacional'', da Rede Globo, mostrando o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, e o assessor de imprensa, Bruno Gaspar, em gestos obscenos ao assistirem à reportagem do telejornal sobre a possibilidade de problemas mecânicos no avião da TAM, que se acidentou em São Paulo. Esse exemplo não é o caso de câmera oculta, mas puxa a reflexão sobre os artifícios da reportagem investigativa.
''Há sempre o risco de cruzar essa fronteira, quando se usa recursos polêmicos como a câmera oculta. No caso do assessor, se não fechou a janela, o problema foi dele, mas da parte do jornalista era obrigação fazer a imagem. Sou mais 'O Globo', que publicou as imagens, do que a 'Folha de S. Paulo', que preferiu não publicar. Eu prefiro sempre me identificar como jornalista, não gosto de vestir a pele de cordeiro, sendo lobo. Não gosto de brincar de espião. Não tem uma regra que se aplique a todas as situações'', pondera Toledo.
Renan Calheiros (PMDB-AL), que se meteu em maus lençóis ao receber dinheiro da empreiteira Mendes Júnior para pagar despesas pessoais da jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha de três anos fora do casamento, transformou em segredos de alcova a relação perigosa de amizade entre os jornalistas e as fontes.
Toledo lembra que Brasília pode ser comparada a uma cidade pequena, que no Plano Piloto não abriga mais do que uma população de 500 mil habitantes, o que faz com que as pessoas sempre se encontrem, tornando as relações mais estreitas.
''É difícil fugir do convívio social. O problema é separar a amizade. Conheço jornalistas em Brasília que sabem de tudo, mas não publicam nada'', comenta Toledo.
Jornalismo investigativo também faz inimigos. A própria Abranji foi criada a partir da morte do jornalista Tim Lopes, em 2002, quando investigava a exploração sexual de adolescentes em bailes funk no Rio de Janeiro.
A associação vem promovendo cursos para jornalistas em situação de risco, com a participação de especialistas estrangeiros, para que aprendam como lidar em casos de sequestro, tiroteio, tentando evitar outros casos ''Tim Lopes''.
Para avançar mais e colocar na mesa do leitor um jornalismo mais vibrante, o Brasil ainda precisa de uma legislação específica - briga que a Abraji também comprou.
''Países como os Estados Unidos e o México já têm legislações há 40 e 30 anos, respectivamente. Hoje, no Brasil, temos que depender da boa vontade dos agentes públicos'', conclui Toledo.


