Modelo adotado em muitas escolas estrangeiras, o período integral começa a ser realidade nas escolas públicas brasileiras. Em Londrina, do total das 85 escolas de ensino fundamental, todas possuem contraturno. Algumas, no entanto, se destacam por ir além; oferecem uma grade diferenciada. Cabe ressaltar que não são atividades de reforço, ou seja, revisar o conteúdo que foi apresentado durante a aula regular. Mas, atividades, dentre elas culturais, esportivas e artísticas, cujo objetivo é desenvolver habilidades ainda adormecidas ou desconhecidas nas crianças. Ao mesmo tempo, auxiliam no aprendizado tradicional e possibilitam a disseminação de valores da boa convivência e do trabalho em equipe.
Na Escola Municipal Professora Mari Carreira Bueno, região Oeste, há 20 anos, uma porcentagem dos alunos têm jornada estendida, que vão de aulas de ginástica artística ao teatro, da capoeira às artes. Do total de 800 alunos, 160 (80 no período da manhã e 80 no período da tarde) participam das oficinas pedagógicas. "São quatro oficinas por período, cada uma com, no máximo, vinte alunos. Durante o período, vão revezando a participação entre as atividades, nas quais entram em contato com outras áreas de conhecimento e expandem seu repertório de informações", explica a coordenadora pedagógica Celina Gonçalves Menck.
Cada ano é trabalhado um tema diferente; o deste ano é "A Evolução da Humanidade – da Pré-história à Modernidade". "Cada oficina trabalha o tema de acordo com sua natureza. Ao final do ano, realizamos uma grande celebração, na qual todos os trabalhos são expostos. Além disso, há as apresentações artísticas." Segundo a coordenadora, a jornada estendida traz muitos resultados, sobretudo, na questão disciplinar. "Como são aulas práticas, não ficam somente no papel ou oralidade, eles veem a aplicação do que aprenderam e sentem-se estimulados. Percebemos melhora no processo de aprendizagem tradicional e concentração."
Guilherme Gondo, professor de ginástica artística, conta que, mesmo com falta de estrutura adequada, é possível colocar os alunos em contato inicial com a modalidade e incentivar a prática de esportes que não são muito populares. "Procuro trabalhar a força física deles e extrair o melhor desempenho de acordo com a nossa realidade, que acontece de forma adaptada. Para tanto, os exercícios são realizados num viés mais lúdico, de maneira a auxiliar nos elementos básicos e fundamentais como andar, correr e saltar."
Além de exigir disciplina e dedicação, o professor comenta que aqueles que de alguma forma se destacam são encaminhados ao centro de treinamento da Associação Londrina de Ginástica Artística (Alga) para que possam se desenvolver ainda mais. "Em outra escola, um aluno apresentou desenvoltura desde o início. Ele começou a treinar de forma mais intensa no centro e, aos 9 anos, ficou em segundo lugar no Torneio Nacional de Ginástica Artística. Apesar desse caso, o objetivo não é, necessariamente descobrir talentos, mas contribuir para o desempenho de qualquer esporte e na vida escolar", lembra Gondo.

ROBÔS E CAPOEIRA
Bem ao lado, em outra sala, acontece a oficina de arte e comunicação, cujo objetivo é despertar um novo olhar para outras formas de linguagem e cores. Segundo a professora Lucineia de Angelis, depois de explanada a evolução da tecnologia na humanidade, as crianças tiveram de criar e construir alguma obra de arte a partir de materiais tecnológicos inutilizados ou obsoletos. "Eles estão produzindo robôs, que seria a forma visual mais expressiva de tecnologia que conhecem, utilizando materiais como parafusos, CDs, controle remoto, pedaços de computador. Em meio à isso, explico que tecnologia vai além e pode ser vista e aplicada em vários setores para melhorar a vida do homem, como no caso da medicina."
Já a oficina de capoeira expressiva, ministrada por Anande das Areias, visa mostrar a luta/dança como mais uma forma de expressão de arte. "Não buscamos um atleta ou um artista, mas que, com o contato com os elementos da capoeira – ginga, música, instrumentos de percussão – possam descobrir em si mesmos potenciais de ritmo, escrita de verso, movimentos corporais. Diante do novo, conseguimos que eles desenvolvam, ainda, quatro pilares importantes para a vida como o querer, a atenção, o acreditar ser capaz e dedicação. Quando veem o resultado do esforço, a autoestima e autoconfiança das crianças se eleva", pontua o professor.

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