Antes mesmo que comecem a desfilar na tela as imagens de “Coringa”, o diretor Todd Phillips deixa claras suas intenções empregando um logotipo antigo da Warner Bros. Nenhuma referência ao selo DC, mas sim o apelo a um cinema de outros tempos, um piscar de olhos vintage que o decorrer deste filme em rebeldia permanente, insurgente e conturbado, confirma como uma espécie de recuperação dos ideais da Nova Hollywood da década de 1970.

Trata-se essencialmente da possibilidade de realizador um cinema para adultos, capaz de transitar pelas sombrias catacumbas da psiquê humana e, durante esta trajetória, colocar em questão os fundamentos do ordenamento social. Para tornar realidade este sonho – verdadeira utopia no contexto da Hollywood atual –, Phillips elegeu como principal parceira referencial desta viagem dois títulos fundamentais da carreira de Martin Scorsese – o mesmo cineasta que esta semana afirmou que não vê filmes de super-heróis porque falta a eles “seres humanos tentando passar experiências emocionais, psicológicas, para outro ser humano”.

Assim, o diretor Phillips e o seu coroteirista Scott Silver transformaram a Nova York suja e decadente de “Taxi Driver” (1976) em Gotham City e atribuíram parentesco entre o atormentado Arthur Fleck de “Coringa” com o Robert De Niro de “O Rei da Comédia” (1982). Estamos, portanto, diante de um homem alienado, perdido em um labirinto de fantasias e experiências infelizes (é palhaço de rua em cidade distópica, e candidato improvável a a comediante de stand-up). O fato de De Niro interpretar o ídolo televisivo Murray Franklin só pode ser visto como outra conexão com o universo Scorsese.

Cabe reverenciar o muito ambicioso atrevimento do diretor Phillips, até então um modesto condutor de filmes-ressaca como “Se Beber Não Case I, II e III”, “Um Parto de Viagem”, “Escola de Idiotas”. Para além dos detalhes que conectam com o imaginário da usina DC (e eles estão em diferentes momentos do filme, remoendo as vísceras dos fãs dos comics), um dos maiores interesses de “Joker” consiste em ver um novo joker,

uma figura que, em essência, não é mais que um ser humano torturado.

A criação de Phillips e Joaquin Phoenix compartilha sua condição insana com versões anteriores do Coringa: é claro que os delírios do personagem são o resultado de sua interação com um mundo doente. No entanto, ao contrário dos Coringas anteriores, o de Joaquin Phoenix não aparece em nenhum momento como porta-voz de nenhuma causa e de ninguém, além dele mesmo. Nem sequer é possível vê-lo como emissário do caos.

Trancado em sua própria mente ensandecida por suas origens estranhas, vitimado pelo bullying, preso entre incompreensões e ilusões de grandeza, tentado a seguir o caminho da perversidade, o Coringa de Phoenix é aterrorizante, muito porque a distância que nos separa dele pode parecer insignificante. E quem nunca dançou na solidão de seu apartamento sonhando em ser Fred Astaire...? Os impulsos sombrios que terminam levando à sua conversão como Coringa tem mais a ver com desejos íntimos do que com desejos megalomaníacos. Este personagem espetacular não é exibido em cenas de ação imponentes, mas em demonstrações íntimas de loucura, uma realidade que faz de “Joker” o filme com menos efeitos especiais do ciclo contemporâneo de super-heróis.

Aqui, o único efeito especial é Phoenix.

Como perturbador ser fantasmagórico, Artur Fleck (Joaquin Phoenix) caminha arrastando seus sonhos de se converter em humorista
Como perturbador ser fantasmagórico, Artur Fleck (Joaquin Phoenix) caminha arrastando seus sonhos de se converter em humorista | Foto: Divulgação

“Coringa” é também um filme de um diretor apaixonado por seu intérprete, arroubo perfeitamente compreensível se o espectador se deixar envolver totalmente pelo recital de puro instinto animal que Joaquin Phoenix oferece na pele de Arthur Fleck. Uma interpretação na qual resplandecem diferentes aspectos do compacto repertório do ator. Seu corpo decaído, mas em permanente tensão, mostra aqui sua aparência mais esquálida, lembrando muito seu personagem Freddie Quell em “O Mestre”, exibido em Londrina em 2012. Em cena que Phoenix aparece seminu e encurvado, suas costas se assemelham às de um primata que, por perverso capricho da evolução, parece ter perdido os ombros. Arthur-Joker é um homem enfermo: sofre uma dolência que provoca inesperados ataques de riso espasmódico, clara manifestação de sua absoluta incompreensão do jogo social. Como perturbador ser fantasmagórico, Artur caminha por Gotham arrastando seus sonhos de se converter em humorista, enquanto, na progressiva exploração de seus traumas familiares, vão se delineando as longínquas origens do Joker.

Gotham é a comunidade enferma que dá sentido a “Joker”, esta audaciosa e crua fábula amoral concebida por Todd Phillips. Um filme que conquista certo status político graças ao retrato do contexto social por onde se move o martirizado Artur: um mundo marcado pela fenda abissal entre ricos e pobres, uma realidade corrompida pela banalidade da indústria do entretenimento e uma sociedade arruinada pela “cultura da felicidade” puramente fake e cimentada pelo trânsito massificante das drogas permissivas.

“Sou eu ou são as coisas que estão ficando muito loucas aí fora?” pergunta Artur em uma de suas visitas à sua desinteressada terapeuta.

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