A história de boa parte da literatura contemporânea brasileira pulsa nas páginas do jornal ''Rascunho'', que completou neste ano 10 anos de circulação. A comemoração do notável percurso recebe, agora, a cereja no bolo: o lançamento de um livro reunindo entrevistas publicadas originalmente no periódico editado em Curitiba por Rogério Pereira.
Intitulado ''As melhores entrevistas do Rascunho'', o livro chegou às prateleiras pela Arquipélago Editorial. Foi organizado pelo escritor e jornalista Luis Henrique Pellanda, subeditor da publicação, que selecionou depoimentos de 15 autores entre os mais de 150 sabatinados desde a primeira edição.
Entre novatos e consagrados desfilam aqui Altair Martins, Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, Elvira Vigna, Fausto Wolff, Fernando Monteiro, João Gilberto Noll, João Ubaldo Ribeiro, José Castello, Luiz Ruffato, Mario Sabino, Milton Hatoum, Nelson de Oliveira, Sérgio Sant'Anna e Wilson Martins. Desse cojunto de vozes, sobressai um vibrante painel das letras nacionais.
''Não acredito nesses mitos românticos do artista como antena da raça, ou como um ser especial, um iluminado'', assinala José Castelo em um trecho de seu depoimento. ''Mas não há dúvida de que, para escrever, é preciso trilhar uma certa zona de treva, sem o que o trabalho sai, ou mecanizado, ou intelectualizado. Dou um enorme valor à razão, mas acho que a razão só funciona se vier temperada com um pouco de cegueira, de espírito desarmado, de susto. A matéria da literatura, Pessoa já dizia, é a intranquilidade''.
Embora enfatizem os mistérios da criação literária, as conversas vagam por outros assuntos revelando perfis bastante abrangentes dos escritores. ''As pessoas pensam muito no consumo'', diz Milton Hatoum. ''Eu não consumo nada, não tenho carro, estou pouco ligando para as aparências. Acho que o mundo está enlouquecendo por causa dessa coisa de consumo. Eu posso viver com pouco. Não preciso de uma fortuna. Materialmente, não quero muito. Espiritualmente, queria tudo.''
Elvira Vigna, a única representante do sexo feminino na antologia, questiona: ''Hoje, quem você conhece que ama alguém? A tragédia contemporânea é o não amar. Só há uma busca por momentos agradáveis. E parciais. Todos estamos sempre apenas parcialmente presentes nas situações que buscamos. Há sempre uma parte do nós guardada em casa, a salvo, para que possamos estar com aquela pessoa de uma forma segura. Assim, fragmentados, temos a ilusão de um controle sobre o que poderia ser visto como uma ameaça - que é o amor. Você fica vulnerável ao amar. Melhor amar só um pouquinho, compartilhar só o agradável. A tragédia é que isso não é viver''.
Como não poderia deixar de ser, a crítica literária é um tema insistentemente enfocado na coletânea, algumas vezes com sabor de polêmica. ''Acho fantástico não existir crítica literária no Brasil. Em todas as épocas e latitudes, a crítica literária mais transformou nulidades em gênios do que reconheceu o valor de quem merecia'', afirma Mario Sabino.
Após virar a última página, fica a expectativa pela publicação da segunda antologia, anunciada pelo próprio Pellanda no prefácio desse primeiro volume.
Serviço:
- As Melhores Entrevistas do Rascunho
Editora - Arquipélago Editorial
Páginas - 288
Quanto - R$ 39

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