Johnny Depp está na comédia "Medo e Delírio", que estréia amanhã
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2000
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 10 (AE) - A idéia de revisitar a contracultura dos anos 60 e 70 tem resultado, de modo invariável
numa bad trip à altura daquele filme vagabundo de Roger Corman (The Trip, 1967) dedicado às alucinações lisérgicas de Peter Fonda e Bruce Dern. O psicodelismo do inglês Terry Gilliam em "Medo e Delírio" (Fear and Loathing in Las Vegas) não fica muito longe do besteirol de Corman, mas a pretensão de Gilliam é infinitamente maior. Decididamente, ele era mais engraçado como integrante do Monty Python do que como crítico da era Nixon e do papa do LSD, Timothy Leary - lembrado, aliás, como um irresponsável, considerando a inserção da epígrafe do doutor Samuel Johnson (1709-1784) nos créditos iniciais do filme. A frase de Johnson sintetiza o que o cineasta pensa a respeito dos doidões que devoravam mescalina, maconha e ácido ouvindo o Jefferson Airplane berrar "White Rabbit": "Ele, que fez de si uma besta, livra-se da dor de ser um ser humano".
Para Gilliam, enquanto todas essas bestas estavam procurando o sonho americano em cassinos, chapados de drogas até a medula, o pesadelo crescia nas cabeças pensantes. Num certo momento, Gilliam culpa o Criador pela insanidade da dupla formada por Johnny Depp e Benicio del Toro, jornalista e advogado junkies. Diz que não havia luz no fim do túnel para salvar os pobres diabos que embarcaram como otários no conto do vigário Timothy Leary.
Com certeza, muita gente viajou sem passaporte - e não voltou - por causa do doutor Leary, mas a culpa não pode ser imputada a ninguém além desses alienados que queriam escancarar as portas do paraíso. O próprio Gilliam não sabe muito como conduzir sua história. Gasta 118 minutos na viagem alucinante desses dois malucos saídos do livro do jornalista Hunter Thompson - como eles, também um irresponsável que fugia de hotéis de Las Vegas sem pagar a conta, dirigindo, bêbado, um conversível vermelho de volta a Los Angeles.
O melhor do filme, aliás, é a reconstituição da época pela figurinista Julie Weiss (Oscar por Os 12 Macacos, dirigido por Gilliam). Ela chega ao requinte de produzir uma réplica da jaqueta de couro de Thompson, desenhando outras roupas hilariantes para o jornalista (Raoul Duke) interpretado por Johnny Depp, a mais engraçada atração do filme. Paranóia - Raramente em estado normal, Raoul atola os pés em surrealistas pisos móveis, vê répteis monstruosos bebendo e fumando maconha, vibra com Jimi Hendrix subvertendo o hino americano e embarca numa viagem paranóica quando seu advogado Dr. Gonzo (Benicio del Toro), o companheiro easy rider, convida a menor Christina Ricci para conhecer seu quarto no hotel.
De tempos em tempos Gilliam recheia o bolo com pitadas sociológicas. A imagem de Nixon sai da televisão e sobrevoa um mar de detritos formado pela projeção alucinógena de Raoul. Elvis Presley, que - ironia - chegou a oferecer ajuda ao presidente Nixon no combate ao narcotráfico, aparece na porta de uma daquelas centenas de espeluncas que realizam casamentos às pressas em Las Vegas. Anões e trapezistas grávidas completam o quadro em homenagem a Fellini, inesgotável fonte de inspiração do surrealismo de Gilliam (As Aventuras do Barão Munchausen, Brazil - O Filme, Os Bandidos do Tempo). No deserto - Como europeu, a paisagem do deserto de Nevada já seria suficiente para saciar o apetite surrealista de Gilliam, mas o cineasta sucumbe ao décor e cria poucas sequências de real interesse em seu pastiche de screwball comedy. Nesse gênero tradicional, a vítima é quase sempre um paspalhão criado no coração das trevas do consumo - enfim, o estereótipo americano consagrado, de bermudas e camisa florida. Raoul adota como modelo esse ser limítrofe, imitando seu andar bestalhão e insuportável sotaque.
Apresenta o mundo das drogas como resposta ao estado letárgico da "besta" americana gerada na administração Nixon para concluir que, em ambos os casos, foram vítimas de um complô. Político, porque, afinal, a crise ética e o consumo de drogas são filhos da mesma mãe: a falta de cultura.


