São Paulo, 15 (AE) - Se você ainda não está saturado de filmes de tribunal, "A Qualquer Preço", de Steve Zaillian, até que não é má pedida. Traz como protagonista John Travolta, no papel de Jan Schilichtman, advogado que ganha dinheiro em causas de indenizações pessoais. Quer dizer, um cidadão sofre um acidente ou morre por negligência de outrem, pessoa física ou jurídica, e recebe - em pessoa, se estiver vivo, ou a família, no caso de ter ido desta para melhor - uma soma em dinheiro a título de reparação.
Schilichtman e seu escritório vivem disso pois cobram porcentagem sobre as indenizações obtidas. Dor transformada em grana e negócios - e o sistema funciona é deste jeito mesmo. Acontece que mesmo esse coração pragmático se comove com o drama de famílias que perderam seus filhos por culpa de indústrias inescrupulosas que jogaram poluentes num rio. O caso baseia-se em fatos reais e rendeu um livro, escrito por Jonathan Harr, que acabou servindo de base ao roteiro.
A história, a partir daqui, não tem nada além do que já se viu muitas vezes nas telas. O sujeito que só pensa em ganhar dinheiro se sente mobilizado por alguma causa e vai em frente, arriscando saúde, profissão e família para alcançar seu objetivo moral. Pode acontecer isso mesmo na vida real, mas pela frequência com que se vê no cinema parece até coisa de rotina. Mas, enfim, a posição do advogado vivido por Travolta é crível, apesar de tudo.
No entanto, não se concentra no personagem de Travolta o pólo forte da história e sim na parte contrária, no advogado contratado para defender as empresas e jogar por terra a argumentação de Schilichtman. Com a raposa jurídica Jerome Facher, Robert Duvall dá uma aula, até certo ponto viciosa, sobre a técnica de compor um personagem. Viciosa, porque se os truques funcionam com ele, seriam ridículos se imitados por gente menos capaz. Duvall sabe que pequenos gestos, somados, são capazes de transmitir ao espectador a sensação de estar diante de uma pessoa concreta, dessas que parecemos conhecer a vida inteira, embora seja mostrada na tela por meros 40 ou 50 minutos.
Esses tiques de Facher são o ar tranquilo, mesmo em situações potencialmente tensas ou a capacidade de sair-se com alguma frase inesperada, em meio a decisões sérias. Coisas assim como isolar-se no porão para ouvir as notícias esportivas no radinho de pilha, isso em meio a um caso que exige nervos de aço inoxidável e decisões a jato. Duvall mostra-se, mais uma vez, mestre nessa grande arte da composição de um personagem, como sabem todos aqueles que o viram como o conselheiro da família nos "Chefões" de Coppola, ou, principalmente, no notável e recente O Apóstolo, que ele dirige além de interpretar o contraditório pastor fanático.
Mas se "O Apóstolo" é um filme de exceção,"A Qualquer Preço" está longe disso, por melhores que sejam os intérpretes. O começo é até meio enganoso. Leva a pensar que haveria disposição de raspar até o fundo o caldeirão dessa estranha máquina de ganhar dinheiro com a desgraça alheia. Mas o fato é que, da metade em diante, o rio volta ao seu leito e o tom convencional passa a predominar. Fica irrealizada a tentativa inicial de flagrar a contradição permanente entre ética e interesse material, que está no coração da sociedade e faria a força do filme.

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