John Pizzarelli volta ao Brasil em setembro
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terça-feira, 03 de agosto de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 04 (AE) - Todo mundo que usa a palavra vitrola no lugar de aparelho de som cresceu ouvindo os Beatles, incluindo o cantor e guitarrista norte-americano John Pizzarelli
um simpático e competente músico de jazz que todos os anos volta ao Brasil para encontrar seu seleto grupo de fãs. Em setembro, Pizzarelli sobe novamente ao palco do Bourbon Street, em São Paulo, justamente para cantar os sucessos do quarteto inglês que integram seu mais recente CD, "John Pizzarelli Meets the Beatles", lançado no mercado brasileiro pela BMG. Quem tiver mais de um fio de cabelo branco não pode perder, embora o show e o disco sejam recomendados para o vovô e o netinho.
De Nova York, por telefone, Pizzarelli conversou com a reportagem e adiantou que, embora não venha acompanhado da imensa orquestra do disco, vai tentar ser fiel ao espírito que norteou o projeto do CD. Ele não nasceu como um nostálgico revival, mas uma tentativa de atualizar e traduzir a linguagem dos Beatles para o idioma jazzístico. Pizzarelli convidou o maestro Don Sebesky para assinar os arranjos do disco, que tem como convidados especiais o trombonista Wayne Andre, o saxofonista Harry Allen e o clarinetista Ken Peplowski, entre outros respeitados músicos da cena nova-iorquina. Experiência - Em São Paulo, como de costume, Pizzarelli vai tocar com seu irmão, Martin (contrabaixo), e o pianista Ray Kennedy. O último é responsável pelos arranjos de duas das canções incluídas no disco, "Ive just Seen a Face" e "And I Love Her", orquestrações mais românticas e menos jazzísticas do que as outras dez assinadas por Sebesky. Ele, que foi arranjador de Wes Montgomery, trabalhou com Pizzarelli em seu disco anterior, "Our Love is here to Stay". "Sebesky é um grande amigo e arranjador e não o convidei porque ele produziu canções dos Beatles para Montgomery, mas por sua competência", diz.
De todos os álbuns dos Beatles, "Abbey Road" é o preferido de Pizzarelli, seguido de perto por "Revolver", o que fica claro pela escolha do repertório do disco. O approach é totalmente diferente da época em que John ouvia o pai, Bucky, também um famoso guitarrista de jazz, tocar Michelle. "A experiência mostra que os Beatles foram capazes de traduzir complexos estados de espírito por intermédio de letras simples que podem ser entendidas por todos", observa, citando "Cant Buy Me Love", a canção de abertura do CD, como exemplo.
"Aparentemente, trata-se de uma letra sem sentido, mas um homem experiente sabe exatamente qual é o seu tema", diz, revelando que o swing da versão jazzística é uma deliberada provocação aos moralistas. Volta ao jazz - Os três Beatles remanescentes ainda não se manifestaram a respeito do disco. Paul McCartney, segundo Pizzarelli, deverá estar presente ao show que o cantor e guitarrista americano vai fazer em Londres também em setembro, logo após a turnê brasileira (ele canta em São Paulo, Rio e Manaus). Ele garante não estar excitado com o encontro. Prefere guardar a memória juvenil dos Beatles. Aos puristas, que conheceram Pizarrelli cantando Cole Porter e sucessos de Nat King Cole, ele responde ser indiferente interpretar Gershwin ou Elton John. "O que importa é que a melodia seja boa", justifica.
De qualquer modo, Pizzarelli volta jazzístico nos dois próximos discos, que vai gravar com seu trio e, eventualmente, com instrumentistas brasileiros. Repleto de standards, o primeiro, previsto para o fim do ano, marca a maturidade do músico, que completa 40 anos no limiar do novo século. "Embora Martin e Ray Kennedy participem dos outros discos, não gravamos ainda um disco só nosso", justifica. Bossa - Sobre o segundo projeto, ele não descarta a possibilidade de incluir nele alguns clássicos da bossa nova e músicos brasileiros. Como seu modelo, Michael Franks, um cantor surgido nos anos 70 e amigo de Tom Jobim, Pizzarelli quer a companhia de músicos brasileiros. Pensou primeiro em João Gilberto, seu ídolo, e, como segundo nome, Toninho Horta. "É um sonho ter João Gilberto a meu lado, mas a bossa nova não é minha herança musical e teria de estudar muito para ser fiel ao estilo dele", admite, modestamente.
Pizzarelli, que é adorado por Robert Altman e canta na trilha sonora de "Prêt-à-Porter", cresceu ouvindo canções dos anos 30, 40 e 50. Seu pai, Bucky Pizzarelli, acompanhava grandes nomes do jazz, entre eles Zoot Sims e Lionel Hampton. Habituado a canções de outras épocas, como "Avalon" ou "Coquette", John descobriu a bossa nova ouvindo Michael Franks, um cantor americano de voz suave como a de Chet Baker e uma de suas maiores influências até hoje.
"Tinha 21 anos quando conheci Michael Franks e parece natural que nessa idade alguém adote uma referência, mas posso afirmar que nossos caminhos são diferentes porque eu sempre me senti mais próximo do mundo do jazz", diz o guitarrista e cantor, que se apresenta invariavelmente de terno e gravata. Tributo ao mestre João Gilberto.


