John Carpenter substitui o susto pelos efeitos especiais em "Vampiros"
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quarta-feira, 14 de abril de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 15 (AE) - O tempo passa e a francesa "Cahiers" continua a ser a mais importante revista de cinema do mundo (a menos que o leitor pense que é a americana Premiere). "Cahiers du Cinéma" tem John Carpenter na conta de gênio, mas talvez tenha se equivocado ao compará-lo a Jacques Tourneur, no sentido de que ambos são cineastas de "gêneros". Carpenter deve sua glória ao horror, como Tourneur devia a dele aos filmes de terror e ao noir. Até aí, tudo bem. Mas Carpenter talvez esteja mais próximo de David Cronenberg, que volta e meia também incursiona pelo horror. Carpenter é outro cineasta dos corpos em mutação, como prova "Vampiros", que estréia amanhã (16).
No centro do filme, como de toda a obra de Carpenter, está a questão do humano. Até onde um homem pode ir sem desligar-se da espécie? Carpenter discute o tema associando-o, desta vez, ao vampirismo. Quando o filme começa, um grupo de homens, numa armação de guerra, chega a uma casa desolada perdida no campo. O líder deles, interpretado por James Woods, diz que se trata de "um ninho", sem esclarecer do quê. É um ninho de vampiros. Woods e seus amigos são caçadores de vampiros ligados à Igreja Católica.
A cena inicial, da tomada do ninho, termina com a destruição de um bando de sugadores de sangue. O problema é que o mestre (dos vampiros) não é localizado. Pode-se argumentar, contra o filme, que há mais efeitos especiais do que sustos nessa sequência, mas se você é um fã de Carpenter vai achar o máximo. Só não vale dizer que é trash porque não é. A narrativa prossegue com uma festa de confraternização dos caçadores num motel de beira de estrada. Surge o mestre e aí é a vez dele promover um banho de sangue (e novo show de efeitos especiais).
Daí em diante, o filme trata da caçada que Woods e o único sobrevivente do seu grupo (Daniel Baldwin), mais uma prostituta que foi barbarizada pelo mestre vampiro, movem ao monstro. Une-se ao trio um padre que sabe tudo sobre o mestre e explica que ele é um vampiro que busca uma cruz para conseguir completar a cerimônia, iniciada séculos antes, que lhe dará o poder de permanecer imune à luz (os vampiros, como se sabe, vivem nas sombras).
Enquanto evolui o filme, Carpenter vai destilando sua preferência temática. A prostituta, que está conectada ao mestre e é a isca do trio para chegar até ele, entra em processo de transformação para virar vampira. Ela morde Baldwin e ele também começa a virar vampiro, o que esconde de Woods. É o que basta para que o cineasta filme corpos em mutação e se questione sobre o que é ser humano. Há mesmo uma história de amor (bela?) entre os dois mutantes que Carpenter filma com delicadeza, só surpreendendo os que não se lembrarem que ele também é o diretor de "Starman - O Homem das Estrelas" (num registro bem diferente).
É, no mínimo, mais interessante do que bobageiras tipo "A Prova Final", de Robert Rodriguez. Um filme como "Vampiros" veicula constantes autorais e uma preocupação humanista, por menos que ela esteja identificada com o humanismo tradicional. A questão é: até onde esse tipo de filme é parar ser levado a sério? "Cahiers" leva, exaltando a filiação de Carpenter a uma das vertentes mais legítimas do cinema - o fantástico. A revista chega ao ponto de opor o cineasta ao grande Francis Ford Coppola, considerando espúria a ligação desse último ao fantástico, por meio de um filme como "Drácula de Bram Stocker".
Dupla tolice. "Drácula" é muito melhor, além de mais erótico, e "Vampiros", com toda a sua vã filosofia (e as referências abertas a sexo), talvez não passe, no fundo, de tolice. O que não se pode é generalizar, integrando Carpenter à corrente do trash. "A Prova Final" é trash, "Vampiros" não é. É obra de um artista discutível, mas que se pretende sério e que tem o que dizer sobre o homem no mundo.


