São Paulo, 09 (AE) - Cada vez mais o cinema americano industrializado se volta para o público adolescente, fazendo filmes para jovens. Quentin Tarantino é o alvo preferido dessa vulgarização teen. Ele próprio foi um adolescente intoxicado de cinema, que via em vídeo, quando era empregado numa loja. "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" deixa transparecer uma (vaga) influência de Tarantino.
O filme que estréia amanhã oferece curiosas soluções de linguagem na história do quarteto de amigos que se envolve com o mundo dos gângsteres. Tudo começa quando Eddy e seu trio de amigos investem 100 mil libras no jogo. Trata-se de uma armação, na qual o dinheiro do grupo vai para o ralo. Eles se vêem às voltas com uma dívida de 500 mil libras. Tentam saldá-la, mas não é fácil arrumar dinheiro.
As tentativas do quarteto constituem a matéria-prima do diretor Guy Ritchie, também o autor do roteiro. Ritchie, de 29 anos, cresceu em Londres e começou sua carreira no cinema em 1993, como agente. Dois anos mais tarde, já dirigia clipes para bandas de hard rock e comerciais. Ele próprio diz que sempre quis ser diretor desde que viu "Butch Cassidy". Aquele era o tipo do herói que o atraía. Butch e o Sundance Kid, interpretados por Paul Newman e Robert Redford, são charmosos e trapaceiros. Heróis no limite do anti-heroísmo.
Os heróis de "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" têm o pé na marginalidade, mas não se identificam com ela. São seres, digamos, normais, confrontados com o lado escuro da sociedade e da vida. O roteiro é quase um tobogã de emoções. Ritchie e o produtor Matthew Vaughn chegaram a pensar em chamar o filme de "Montanha Russa". "Começa como um burburinho e vira um turbilhão de divertimento e confusão."
Ritchie queria fazer um filme não crítico e não violento sobre a violência. O resultado é uma estilização gráfica da violência, algo que não se via desde os primeiros (e melhores) filmes de Walter Hill, uma maneira ostensiva de retrabalhar o clichê, construindo o filme por meio de uma direção de cena forte, como se o cineasta tivesse acabado de inventar o cinema. Ritchie também queria que o filme parecesse real e engraçado. O humor é decisivo, embora o espectador não deva esperar uma comédia louca ou um pastelão. Se há uma coisa que Ritchie tentou evitar foi o espalhafato, seja em termos de violência ou humor. Como ele diz: não queria que o filme fosse violento ou humorado demais.
É uma equipe toda jovem. Diretor chegando aos 30 anos, produtor de 36, atores na faixa dos 20 e poucos. Juventude não é necessariamente virtude, mas a equipe esperta de "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" tem timing e feeling para se comunicar com o público mais jovem. Os demais espectadores vão achar que o filme não é grande coisa. Mas proporciona 106 minutos de diversão que não é ofensiva, o que já é alguma coisa.
Serviço - "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes". Comédia. Direção de Guy Ritchie. Com Jason Flemyng, Dexter Fletcher, Nick Moran, Jason Statham, Sting. Duração: 107 minutos. 14 anos. Distribuição: Columbia TriStar

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