JOGOS E BRINCADEIRAS - Muito além do arco e flecha
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de fevereiro de 2004
Fernanda Bressan<br>Reportagem Local 
Quem imagina que ''brincadeira de índio'' é apenas arco e flecha e dança da chuva está muito enganado. Passeando pelas aldeias do Brasil é fácil identificar crianças se divertindo com peões, petecas, pernas-de-pau e também com jogos típicos da cultura indígena. Querendo reverter esse quadro de desconhecimento sobre os brinquedos dos índios, um grupo de pesquisadores brasileiros e estrangeiros criou o projeto ''Jogos Indígenas do Brasil''.
Coordenado pelo jornalista Mauricio Lima, o grupo percorreu oito aldeias de diferentes etnias para verificar o universo lúdico indígena. O início foi no Parque Nacional do Xingu e, na sequência, os pesquisadores passaram pelos estados de Minas Gerais, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo, visitando aldeias dos índios Kamajurá, Guarany, Bororo, Pareci, Kanela, Terena e Maxakali. ''Fala-se muito sobre rituais, vestimenta, comida e crenças indígenas, mas não tinha estudo sobre brincadeira'', observa o jornalista.
Lima conta que é membro de um grupo internacional de estudos sobre jogos de tabuleiro e aponta que a idéia desse projeto surgiu justamente em um desses encontros, realizado em Barcelona, na Espanha, em 2002. ''Há 15 anos participo desse grupo e nunca tinha ouvido nada que falasse do Brasil'', relata. Com essa constatação, estava dado o pontapé inicial para o projeto, que começou no ano passado patrocinado pela Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) e também por empresas privadas.
''Não esperava encontrar uma riqueza tão grande nas aldeias'', revela o jornalista-pesquisador. Ele conta que o que mais chamou a atenção foi uma brincadeira de origem Inca chamada ''Jogo da Onça'', que também está presente em aldeias americanas. Segundo ele, trata-se de um jogo de estratégia que é disputado por duas pessoas em um tabuleiro. De um lado está a onça e, do outro, 14 cachorros. Enquanto a onça tenta capturar os cachorros, eles procuram imobilizá-la. Ele descreve que as peças dos jogos são feitas com grãos de milho de qualidades diferentes para a onça e para os cachorros. Em algumas aldeias há o tabuleiro, mas na maioria ele é desenhado no chão.
A descoberta desse jogo foi tão marcante que ele foi escolhido para ser fabricado e distribuído a escolas da rede pública de ensino a partir do dia 19 de abril, Dia do Índio. Serão feitos 20 mil kits com o jogo e uma cartilha explicativa. A expectativa de Lima é que cinco mil escolas de todo o país sejam contempladas com o jogo, que será uma réplica do encontrado nas aldeias, inclusive com as peças imitando grãos de milho.
Além disso, 500 documentários serão editados e enviados a escolas. ''É importante porque esse material tem aplicações em várias disciplinas como geografia, história e matemática'', destaca. Para colocar a descoberta à disposição de mais pessoas, 20 réplicas do jogo serão doadas para os principais museus do Brasil e do mundo.
Mas nem só de ''Jogo da Onça'' é formada a diversão das crianças indígenas. Lima conta que há um objeto, semelhante a um bumerang, que é muito encontrado nas aldeias. Segundo ele, a peça é arremeçada no ar e fica plainando por um tempo até ser recolhida novamente. Além disso, brincadeiras típicas de algumas décadas atrás, como peteca, peão e cama de gato, continuam vivas na cultura indígena e são fabricadas por eles mesmos com penas, palhas, linhas e outras matérias-primas. E para não fugir da tradição, o arco-e-flecha também é uma brincadeira nas aldeias, que divide espaço com toda essa riqueza revelada na pesquisa.


