Jogo entre ficção e realidade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Alguns escritores cultivam longos anos em entre uma obra e outra. No caso do argentino Ricardo Piglia, foram exatamente oito anos entre a publicação de ''Dinheiro Queimado'' em 1997 e ''Alvo Noturno'', seu último romance que acaba de chegar às livrarias lançado pela editora Companhia das Letras.
''Alvo Noturno'' é a primeira aventura de Piglia pelo universo do romance policial. Na verdade a primeira aventura no campo ficcional, já que publicou vários ensaios sobre o gênero que ele considera uma síntese de todos os outros gêneros literários. Apesar de sua devoção declarada pelas histórias policiais, nunca havia se aventurado a criar uma.
Publicado no ano passado na Argentina, ''Alvo Noturno'' foi agraciado com o prestigiado prêmio Dashiell Hammett concedido pela Associação Internacional de Escritores Policiais. Mas, mesmo trazendo todos os elementos e clichês de um romance policial, a obra rompe com os padrões do gênero.
Na obra, por exemplo, não há a clássica solução do crime. O culpado não é apontado categoricamente. O criminoso também não é pego, não tem nenhuma condenação por seus crimes. Ricardo Piglia segue a lendária teoria de Jorge Luis Borges: é o leitor que confere sentido à narrativa policial, é ele que deve tirar as devidas conclusões.
O foco de ''Alvo Noturno'' não está apenas numa ação criminosa, mas em vários outros pontos: no conflito interno de uma rica família rural; na vida de um povoado do interior que vive sob o poder do latifúndio na transição entre as atividades rurais e as industriais; e nas configurações sociais do regime militar argentino da década de 1970. Há a deliberada intenção do autor em misturar ficção e realidade.
Tudo começa quando um galã latino criado em Nova York desembarca num pequeno vilarejo da província de Buenos Aires. Com uma mala de dinheiro na bagagem, ele está atrás das duas mulheres mais cobiçadas do lugar: as gêmeas Ida e Sofía, filhas do latifundiário Belladona.
Após encantar todos no vilarejo e conquistar as gêmeas, o galã aparece morto com uma faca no peito no quarto do hotel em que estava hospedado. Todas as suspeitas recaem sobre um dos funcionários do hotel, um sujeito delicado que morria de amores pelo galã.
O comissário Croce, responsável pela polícia local, encontra indícios de que há muito mais coisas que cercam o crime do que um simples suspeita de crime passional. Sua investigação caminha em direção contrária aos poderosos da região, que pretendem encerrar o caso o mais rápido possível.
Em meio a essa disputa velada de forças, desembarca na cidade um jornalista da capital chamado Emilio Renzi. Sua missão é realizar uma cobertura do crime e dos acontecimentos. Trata-se de um escritor frustrado que será a testemunha ocular de toda uma longa história onde o crime é apenas um detalhe. Trata-se de um personagem que já esteve presente em outros romances do escritor.
Ricardo Piglia utiliza as ferramentas do romance policial para apresentar um painel da sociedade rural argentina da década de 70 - que vive numa estrutura feudal e ao mesmo tempo assiste a industrialização arrebentando as porteiras dos pampas. Também faz uso de uma das características de sua literatura, promover o cruzamento de dois gêneros: ensaio e ficção.
''Alvo Noturno'' é recheado de notas que tratam a ficção como se fosse obra ensaística, realidade histórica. Algumas delas são retiradas de anotações realizadas pelos próprios personagens sobre a história narrada. Numa espécie de jogo, os gêneros são embaralhados para compor um segundo ou terceiro sentido.
Nascido em Buenos Aires em 1940, Ricardo Piglia é um escritores de destaque da literatura argentina contemporânea. Professor da Universidade de Buenos Aires, é autor dos romances ''Nome Falso'' (Iluminuras, 1988), ''Cidade Ausente'' (Iluminuras, 1993), ''Prisão Perpétua'' (Iluminuras, 1989) e ''Dinheiro Queimado'' (Companhia das Letras, 1998).
Uma das teses presentes nos ensaios de Piglia é a de que o conto, em sua forma moderna, sempre conta duas histórias, uma visível e outra secreta. Uma forma de contar uma história que oculta uma segunda história como se as duas constituíssem um único corpo. Uma narrativa construída para revelar aquilo que ela própria oculta.
Em ''Alvo Noturno'' Piglia leva para a narrativa do romance sua tese do conto. Expande a tese. Os amantes das narrativas policiais clássicas terão nas mãos a possibilidade de torcer o nariz para o livro. Ou repensar a mutação do gênero.
O escritor vem ao Brasil nos próximos dias para o lançamento do livro. No dia 26 de setembro estará em São Paulo, às 20 horas, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura. No dia 28 estará no Rio de Janeiro, às 20 hora, no Instituto Moreira Salles.
Serviço
Alvo Noturno
Autor - Ricardo Piglia
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Heloisa Jahn
Páginas - 256
Quanto - R$ 45,00
Fragmento:
Quando o sujeito é comissário, pode imaginar que conseguiu reduzir a escala da morte a uma dimensão pessoal. E quando digo morte me refiro aos que foram assassinados. É possível matar alguém acidentalmente, mas não é possível assassinar alguém acidentalmente. Se ontem, por exemplo, a senhora X não tivesse voltado para casa a pé e à noite e não tivesse dobrado aquela esquina, será que poderia ter sido assassinada? Poderia ter morrido mas não poderia ter sido assassinada? Se a morte não foi intencional, é que não foi um assassinato. Portanto é necessário que haja uma decisão e um motivo. Por isso o crime puro é muito raro. Se não tem motivação, é enigmático: temos o cadáver, temos suspeitos, mas não temos a causa.
(Fragmento de ''Alvo Noturno'', de Ricardo Piglia)


