JOGO DE PALAVRAS - Inéditos de Cecília Meireles
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quarta-feira, 09 de julho de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Cecília Meireles (1901-1964) tinha um quarto, a alma, onde se vestia de profunda feminilidade em suas poesias, dormindo e acordando sobre um leito de emoções - como se fossem de uma eterna noite em claro sob a luz da palavra, que a tomava nos braços ou pelas mãos, colocando nos seus dedos a aliança de uma das damas da literatura brasileira.
''A minha avó foi uma pessoa que viveu numa transição entre esse mundo e o espiritual'', revela um dos netos de Cecília, o cirurgião plástico carioca Ricardo Strang, que reside em Londrina, e que, depois de uma disputa familiar de 20 anos, detém os direitos autorais da escritora.
Cecília, um quarto em que as portas e janelas começam a ser abertas novamente pelo herdeiro para que os leitores da autora, que tem poesias traduzidas para o espanhol, francês, italiano, inglês, alemão, húngaro e hindu, possam conhecer trabalhos inéditos, dando vazão também à correnteza de títulos, que deixaram de circular por causa da demanda entre as três filhas da escritora, Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda.
O ponto final na contenda judicial foi colocado, no ano passado, por um acórdão do Tribunal de Justiça (TJ), do Rio de Janeiro, que deixou Maria Fernanda de fora das futuras decisões sobre o patrimônio da autora, exclusividade que seria de Mathilde e de Strang, que é filho de Elvira (já falecida). Com a morte de Mathilde, dois meses depois do acórdão, as cotas dela passaram para o cirurgião plástico.
''A decisão permitirá revitalizar a obra. Tem muita coisa inédita e títulos esgotados e, há muitos anos, esquecidos'', ressalta Strang, acrescentando que várias editoras já entraram em contato com outro neto de Cecília, o advogado Alexandre Carlos Teixeira, filho de Mathilde, representante do herdeiro de Londrina e agente literário da poetisa.
Ele conta que muitos contratos antigos precisam ser renegociados. Caso da Editora Nova Fronteira, que detém títulos que, há algum tempo, não reedita. ''Vamos pulverizar algumas obras entre as editoras interessadas. Muita coisa deve voltar às prateleiras em breve'', comenta Strang.
Entre os textos inéditos destaque para as crônicas e teatrais. O neto de Cecília comenta que a intenção é divulgar também o trabalho dela como educadora. ''Na década de 30, a minha avó fez muito pela educação pública, além de escrever diariamente sobre o tema em sua coluna no jornal Diário de Notícias''. Cecília recebeu uma homenagem póstuma da Academia Brasileira de Letras e, somente não ocupou uma cadeira porque, na época, era vetado o ingresso de mulheres'', ressalta o herdeiro.
Apesar de esquentar uma briga judicial, os direitos autorais da escritora, na opinião de Strang, não são representativos financeiramente. Cecília é uma das principais escritoras brasileiras, porém, as suas obras nunca se tornaram best sellers.
Strang herdou também o sobrado do Cosme Velho (RJ), onde Cecília morou com o segundo marido, Heitor Grillo. ''O sobrado precisa ser restaurado. O acervo está bem arquivado e seguro. A nossa idéia é criar uma fundação, disponibilizando o acervo para estudiosos'', afirma.
Neto mais velho de Cecília, Strang tinha 13 anos quando a avó morreu. ''A minha avó me pegava em casa para passear. A gente costumava brincar, fazendo um jogo de palavras. Na brincadeira, um dos dois apontava para um objeto, uma flor, uma casa... e começava a fazer um versinho. O outro tinha que completar. Aos quatro anos de idade, eu comecei a ler com ela. Ela era muito carinhosa, porém, eu sentia que a minha avó tinha um limite, além do qual ninguém ia. Nem mesmo o marido e as filhas''.
Uma das portas para esse lugar dos mistérios - a Arcádia dos poetas - se abria sempre que a escritora entrava em seu gabinete. ''Quando, a minha avó passava por aquela porta, ninguém chegava perto. Engraçado, quando a gente nasce imerso num ambiente como o da minha infância demora muito para perceber. Não sei precisar, mas em algum momento... por volta dos 10 anos... vi que a minha avó era uma pessoa diferente. Muitas coisas ela escrevia à mão. Cheguei a ter alguns desses textos, que estão agora no acervo'', lembra.
O jogo de palavras de Cecília e o neto mais velho não terminou, deixando a porta aberta para Strang entrar. Ele ainda põe as palavras para jogar, quase que secretamente e, como a avó, deixando em cada letra um pedaço de emoção.


