O compositor alemão Karlheinz Stockhausen chegou no Rio de Janeiro, ouviu falar do choro e resolveu conferir. A idéia era só passar numa roda, em algum bar, para conhecer a música, sem esticar a noite. Mas o alemão foi levado a uma grupo de choro repleto de feras, entre eles o bandolinista Joel Nascimento.
‘‘Às cinco horas da manhã ele ainda estava lá, ouvindo a gente’’, recorda, bem-humorado, Joel. Stockhausen não foi o único estrangeiro a se surpreender com a qualidade da música instrumental brasileira: ‘‘Durante apresentações nos Estados Unidos, alguns americanos ficavam impressionados ao saber que todos aqueles arranjos do choro vêm de improviso’’.
Joel Nascimento é considerado um dos grandes músicos brasileiros da atualidade. O bandolinista está lançando, pela RGE, seu sétimo CD solo, ‘‘Relendo Jacob do Bandolim’’, uma homenagem ao músico que influenciou, segundo Nascimento, 99% dos bandolinistas brasileiros.
Com produção de Pelão, o álbum traz o acompanhamento de Luiz Otávio Braga no violão de sete cordas, Luís Flávio no de seis, Henrique Cazes no cavaquinho e Beto Cazes na percussão. Os arranjos de base são de Luís Olívio Braga. ‘‘É um grupo de choro com um solista interpretando as músicas mais conhecidas de Jacob’’, explica Nascimento.
Para reproduzir a espontaneidade de uma roda de choro, o bandolinista optou pela gravação de one take - os músicos tocam juntos no estúdio: ‘‘Eu não quis usar playback, este álbum foi gravado com a espontaneidade do choro, você vê o bom resultado no todo, não há o que consertar’’.
No disco, Joel Nascimento destila seu estilo personalista de tocar o bandolim em músicas como ‘‘Noites Cariocas’’, ‘‘Doce de Coco’’ e ‘‘Vibrações’’. Este é o segundo álbum de Nascimento lançado em 1998. Em janeiro chegou ao mercado ‘‘Joel Nascimento e o Sexteto Brasileiro’’. O lançamento oficial de ‘‘Relendo Jacob do Bandolim’’ ocorreu em São Paulo, com três apresentações no Sesc/Pompéia, no final de junho.
‘‘O Jacob foi o principal divulgador do bandolim no Brasil e tinha uma personalidade musical muito grande, gerando muitos seguidores’’, revela Nascimento, que também possui uma interpretação característica. ‘‘Reconheço que tenho a minha maneira, consegui um som que me distingue. Eu não posso dizer que sou melhor ou pior que ninguém, mas sou reconhecido por isso.’’
O músico estudou piano na infância, mas interrompeu a carreira musical por causa de um problema de audição. Nas rodas de choro que frequentava no Rio de Janeiro ganhou um bandolim, por volta de 1969. ‘‘Eu comecei tarde. Em 1974 conheci o João Nogueira e gravei um disco com ele, pela Odeon. Aí começaram a dizer que eu era bandolinista e tive que estudar muito. Em seguida passaram a me cobrar um disco, e eu gravei pela Odeon’’, ressalta.
As gravações foram se avolumando. Nascimento tocou com Chico Buarque, Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Caetano Veloso e Oswaldo Montenegro, entre outros. O músico conheceu Radamés Gnatalli e fundou o Camerata Carioca, ao lado de Rafael Rabello e Maurício Carrilho - então considerados instrumentistas da nova geração. Com o Camerata, o choro ganhou arranjos ainda mais elaborados, que lembravam a música de câmara. ‘‘Não invejo quem conviveu com Bach ou Mozart porque eu fui amigo do Radamés, já sei o que é conviver com um grande músico’’, acrescenta.
O bandolinista está em Londrina, onde leciona o instrumento e participa da Oficina do Choro, dentro das atividades do 18º Festival de Música da cidade. ‘‘Há uns quatro anos o Festival começou a realizar oficinas de jazz e de choro com muito sucesso. A maioria dos alunos que fazem essas oficinas estudam música clássica. Os estudantes ganham mais experiência com algo mais popular’’, comenta.
Os elogios também vão para a direção do Festival: ‘‘Um evento desses não é realizado em qualquer lugar. A gente deve ressaltar os organizadores, que abraçam com amor a idéia. Isso é muito cultural, é ótimo, de primeiro mundo’’.
A Oficina do Choro seria uma prova de que o estilo continua cultivando admiradores. ‘‘O choro sempre está presente, não vai desaparecer, há tempos vem se mantendo constante. A música instrumental sempre fica em quarto plano, não tem tanta popularidade quanto a música com letra’’, acrescenta.
Com cerca de 20 alunos, a Oficina do Choro do Festival procura ensinar os fundamentos do estilo: ‘‘O aluno não sai um chorão, mas aprende muita coisa. Tem gente que volta no ano seguinte tocando melhor, e a satisfação é muito grande’’.
Joel Nascimento ressalta que, antigamente, o choro era mais divulgado, e nas décadas de 40 e 50 a música instrumental ganhava mais atenção da mídia: ‘‘Hoje não há tanto espaço, mas a apreciação se mantém. Eu estou sempre gravando, tocando, e conheço o mundo todo graças ao bandolim, sou um chorão que conseguiu tudo isso’’.
A renovação dos chorões também está ocorrendo com naturalidade. Joel Nascimento já atravessou duas gerações de choro: a de Rafael Rabello, Henrique e Beto Cazes e Maurício Carrilho, e outra composta por Marcelo Gonçalves e grupos como o Água de Moringa, do Rio de Janeiro.
‘‘O choro está sempre se renovando, o Jacob do Bandolim, pouco antes de morrer, disse que o estilo tinha acabado. Mas logo em seguida teve um novo boom na mídia’’, lembra Nascimento. ‘‘Os novos chorões são diferentes, eles estudam, têm mais cultura musical. Hoje todos compõem, fazem arranjos e procuram evoluir criando uma visão mais ampla. O chorão antigo não sabia ler música’’, completa.
O gosto musical de Joel Nascimento também é variado: ‘‘Gosto muito de Bach, Beethoven e Chopin, que foi para o piano o que Paganini foi para o violino. Mas gosto de todo tipo de música’’. O bandolinista se apresenta com a Oficina de Jazz e Choro no dia 15, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde.

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