Rubens Burigo Neto
De Curitiba
Na opinião do carioca da Penha, Joel Nascimento, ‘‘para ser chorão tem que passar pela Leopoldina’’ (bairro do subúrbio do Rio de Janeiro). A ‘‘exigência’’ só não é válida para os alunos que participaram das oficinas de bandolim e conjunto de choro, que Nascimento coordenou na 8ª Oficina de MPB de Curitiba, que termina hoje. Nascido na Leopoldina há 62 anos, ele faz questão de frisar que o instrumento foi ‘‘uma agradável surpresa’’ para sua carreira de músico.
Desde a infância, Nascimento tocava piano clássico mas, aos 22 anos abandonou a música porque teve um problema de audição que lhe afetou o ouvido direito. ‘‘Larguei tudo e fui trabalhar como técnico em radiologia em hospitais públicos do Rio’’. Ele relembra que os esporádicos contatos com a música aconteceram em ‘‘brincadeiras’’ com o violão e o cavaquinho. ‘‘Como guardei toda a base do piano, quando ganhei meu primeiro bandolim em 1969, comecei a tocar com facilidade, mas sempre sem compromisso.’’
Modéstia. Afinal, dessas reuniões ‘‘sem compromisso’’ participavam, entre outros, César Faria (pai de Paulinho da Viola) e Deo Rian, considerado por Nascimento ‘‘um dos melhores’’ bandolinistas do Brasil. Ele conta que o encontro que teve com o sambista João Nogueira, na Ilha de Paquetá, em 1974 foi fundamental para consolidar o começo da carreira musical - que já ultrapassa 25 anos.
‘‘Meu irmão nos apresentou e, numa roda, acabei acompanhando uma música que ele cantava. João Nogueira gostou e acabou me convidando para gravar com ele na EMI-Odeon’’. A partir dessa gravação, em que os técnicos do estúdio ‘‘ficaram maravilhados’’, segundo Nascimento, ele ganhou o respeito de músicos já famosos, como Martinho da Vila e Clara Nunes e não parou mais de gravar. São 12 discos individuais, o primeiro, gravado em 1975: ‘‘depois de uma ‘‘campanha’’ do jornalista Nelson Motta, de ‘O Globo’, gravei músicas de Baden Powell, Chico Buarque e Tom Jobim. No fim do ano passado um dos discos de Nascimento foi relançado somente na Europa.
Nascimento admite ter saudade das rodas de choro no famoso bar ‘‘Suvaco da Cobra’’, que ficava na Penha. ‘‘Ficávamos tocando por horas, com Paulo Moura, Clara Nunes, Eliseth Cardoso. O português dono do bar sempre queria fechá-lo às duas da tarde, mas nunca conseguia.’’ O bar, Nascimento e seus colegas ficaram ainda mais famosos quando Abel Ferreira gravou o ‘‘Choro do Suvaco da Cobra.’’ ‘‘Mas, no final da década de 70, um empresário acabou registrando o nome e abriu um novo bar em outro bairro e o movimento começou a perder força’’.
A Camerata Carioca, formada em 1979, é considerada por Nascimento uma revolução total no choro brasileiro. ‘‘Revolucionamos a formação instrumental do choro. Pedi ao amigo e maestro Radamés Gnatalli que transcrevesse músicas de orquestra para que pudéssemos tocá-las como MPB. Os chorões antigos, apesar do talento, não sabiam ler música. Como no meu conjunto todos os instrumentistas (Maurício Carrilho, Luiz Otávio Braga, Raphael Rabelo e a irmã Luciana, Celso do Pandeiro e João Pedro Borges. E os irmãos Henrique e Beto Cazes e Joaquim Santos (da segunda formação da Camerata) sabiam fazer isto, mudamos, o conceito camerístico que o choro tinha’’.
Joel Nascimento afirma que alunos que orientou na Oficina de MPB, também já têm uma noção básica da leitura de cifras, arranjo e composição. ‘‘Não existe músico hoje em dia que consiga sobreviver sem ter um conhecimento acima do básico, incluindo aí, a utilização do computador’’. Ele conta que prefere a música acústica à elétrica por ela ser ‘‘mais natural’’. Mas, na oficina, salienta, ‘‘foi muito gostoso porque não existiam barreiras musicais e o conjunto de choro formado pelos alunos contava com guitarra baixo e bateria. Afinal, instrumento foi feito para tocar todos os tipos de música. Desde que o seja bem tocado.’’
Para Nascimento falta apoio da mídia para que a música instrumental brasileira ganhe mais adeptos. Nas décadas passadas havia mais cobertura dos jornais, rádios e TVs e, sem isso, a ‘‘juventude está perdendo a identidade cultural do Brasil’’, preocupa-se. ‘‘Nosso público é pequeno, mas fiel porque a música instrumental é mais sofisticada,’’ justifica.Um dos ‘‘chorões’’ mais famosos do País quer que a música instrumental brasileira ganhe mais adeptos com o apoio dos meios de comunicação
José SuassunaJoel Nascimento: ‘‘Nosso público é pequeno, mas fiel porque a música instrumental é mais sofisticada’’