O bandolinista carioca Joel Nascimento, considerado um dos mais importantes do país, está gravando um disco em Londrina. Ainda sem nome definido, o álbum é um projeto da pianista Luciana Gastaldi Sardinha Souza, aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura. O CD será dividido em dois temas: uma parte vai abrigar obras de Joel Nascimento compostas para piano e interpretadas por Luciana Gastaldi. Outra parte traz músicas de compositores diversos, tocadas em duo de piano e bandolim. As gravações estão sendo realizadas na Associação Médica de Londrina.
A idéia é consequência do trabalho de Joel Nascimento como professor do Festival de Música da cidade. Há cerca de dois anos, Luciana Gastaldi teve aulas com Joel e decidiu gravar três composições do bandolinista feitas para piano. As interpretações foram enviadas para o Rio de Janeiro e agradaram o autor.
Joel Nascimento tem um currículo extenso, que inclui gravações históricas do grupo Camerata Carioca com Radamés Gnattali. Foi Joel o idealizador da adaptação da ‘‘Suíte Retratos’’ – feita para orquestra – para um regional de choro, gravada por Jacob do Bandolim. Nascimento gravou com Chico Buarque, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Martinho da Vila e vários outros nomes de relevo.
Luciana Gastaldi fez a faculdade de música no Colégio Mãe de Deus e participou de master-classes com Marco Antonio de Almeida, Magdalena Tagliaferro, Olga Kium e outros. Ela também é mestre em matemática e dá aulas na Universidade Estadual de Londrina.
Entusiasmados com as gravações, Joel Nascimento e Luciana Gastaldi conversaram com a Folha antes de participarem de uma roda de choro com músicos da cidade, na sexta-feira à noite.
Como surgiu a idéia de gravar em Londrina?
Joel Nascimento - A idéia foi da Luciana. Ela fez a oficina de choro no Festival e gostou das minhas músicas. Nos tornamos amigos e ela gravou um CD com três músicas e mandou para mim. E depois veio a idéia de fazer, pela Lei de Incentivo à Cultura da cidade, um disco. O projeto foi aprovado e eu estou aqui gravando com ela.
Qual o repertório do disco?
Joel Nascimento - Não é um disco de choro – eu sou muito ligado ao choro. Ela está gravando as minhas composições para piano. São dez músicas. No resto do disco eu solo no bandolim e ela ao piano. Esse disco poderia até se chamar ‘‘As Duas Faces de Joel Nascimento’’, porque é minha face de compositor e de bandolinista. Eu não sou pianista mas estudei piano, larguei porque tive um problema de audição. Sou um pianista frustrado. Adoro piano. Essas músicas foram compostas sem pretensão, sem querer ser gênio. Foram feitas exclusivamente pelo meu amor ao piano. Eu adoro Londrina, já estive aqui em 76 ou 77, no Festival de Choro no Ouro Verde, foi um sucesso. Inclusive foi quando ocorreu o meu concerto no avião, que ficou famoso. O Sérgio Cabral (jornalista) falou para mim, no vôo: ‘‘Joel, vai lá tocar’’. Aí ele falou para o piloto: ‘‘O rapaz vai tocar’’. Eu peguei o bandolim, coloquei nele o microfone do avião e toquei ‘‘Despertar na Montanha’’. Quando acabei, o avião todo aplaudiu. Toquei três músicas.
Essas composições para piano são de que gênero?
Joel Nascimento - Tem umas valsas bem européias. A gente gosta do Chopin, do Bach. Você vai ver alguma alguma música contemporânea, moderna. ‘‘Meu Sonho’’ é moderna. E tem também alguma mistura de barroco. É a minha cultura auditiva desenvolvida durante a minha carreira que vai estar no disco. Gravações de bandolim e piano já fiz algumas, com o Radamés Gnattali e com o Arthur Moreira Lima. Eu tenho umas cinco músicas gravadas em diferentes discos com Arthur Moreira Lima. Inclusive com uma delas ele ganhou o prêmio Sharp. Com o Radamés fiz várias. Eu gosto muito porque fico junto do piano.
Quando vocês resolveram gravar essas composições?
Luciana - Eu já tinha ‘‘Meu Sonho’’, para bandolim e piano. Eu adorei a música. Aí ele me deu mais duas obras: ‘‘Opus 2’’ e ‘‘Cantilena’’. Músicas como essas têm que ser conhecidas. São músicas simples, mas de uma sutileza... Nós também nos encontrávamos no Festival de Curitiba, ensaiávamos as partes, ele me ensinava como tocar. Eu não sou profissional, de dar concertos. Eu pego pouca coisa para fazer, mas quero fazer bem feito. Tem que ter muita dedicação.
Joel Nascimento - Nós gravamos um complemento com quatro músicas: dois movimentos de uma ‘‘Suíte Popular’’ do Radamés Gnattali; ‘‘Despertar da Montanha’’, do Eduardo Souto; e uma música do Anacleto de Medeiros, uma valsa muito bonita com arranjo do Luiz Otávio Braga (violonista). Uma parte do disco vai ter a Luciana interpretando minhas músicas, e outra parte vai ter o duo. Ela está me dando uma satisfação imensa porque está fazendo aquilo que eu gostaria de fazer.
Vocês têm idéia de quando vai sair o disco?
Luciana - A matriz sai daqui a uns 15 dias. Mas a gente só tem perto de R$ 2.800,00. Esse dinheiro deu para pagar uma parte da gravação e a hospedagem do Joel.
Quer dizer que, mesmo com a Lei, está difícil desenvolver o projeto?
Luciana - Está difícil, porque os empreendedores não conhecem a Lei. A gente tem que apresentar o projeto e muitos ficam temerosos de aplicar, de confiar. É difícil conseguir patrocínio.
Joel - Esse disco vai sair e não vai demorar muito, porque eu também tenho interesse em que ele saia. É um complemento da minha vida de músico, da minha carreira.
Joel, você vai participar do Festival de Londrina neste ano?
Joel Nascimento - Acho que sim, até agora não me comunicaram. Eu não posso afirmar. Eu tenho trabalhos e projetos para fazer, e fico rezando para não coincidir com o Festival porque eu gosto de vir, é gratificante pelo lado da música, pelo lado cultural.
Como estão suas atividades no Rio de Janeiro?
Joel Nascimento - Eu continuo com a minha rotina. Faço um sonzinho aqui, um som ali, uma viagenzinha para São Paulo, Brasília. Exterior eu não tenho ido porque o mercado ficou meio difícil, agora está melhorando. Infelizmente quando o dólar sobe aqui, fica bom para o músico tocar lá fora. Não torço por isso porque a coisa fica ruim aqui. Antigamente com qualquer mil dólares você viajava. Eu tenho um projeto para gravar um disco só de valsas, até o Maurício Carrilho (violonista) está com um selo (Acari Records) e quer que eu faça com ele. Eu tenho alguns projetos por aí.
Você acha que a mídia está dando mais atenção para a música não-comercial?
Joel Nascimento - A música instrumental representa, no mundo, apenas 10% do que é produzido. Isso não vai mudar nunca. Ninguém é obrigado a ficar ouvindo solos de bandolim. São gatos pingados que observam isso. A música cantada é que chega lá. No Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em concerto de música clássica, só aparecem velhos. Se acabarem esses velhos... A mídia tem suas razões porque o negócio é faturar – com música de dois acordes e bumbum de fora rebolando. Eu não quero criticar o trabalho dos outros. Eu não quero tirar o espaço de ninguém, e nem fico com raiva. A gente, que optou por uma música mais elaborada, arca com isso.

mockup