'Joe the Barbarian' encanta em épico moderno
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Claudio Yuge<BR> Equipe da Folha 
Joe é um adolescente diabético, visto quase como um autista por sua mãe, que não lhe dá muita atenção. Joe adora histórias em quadrinhos e fantasia, vive desenhando em qualquer pedaço de papel e é incompreendido no colégio, onde apanha bastante de seus colegas. Certo dia, o menino invade o universo de seus próprios brinquedos e então começa uma grande aventura. Não há nada novo ou espetacular nessa sinopse. Entretanto, apesar dos clichês, ''Joe the Barbarian'', escrito por Grant Morrison e ilustrado por Sean Murphy, é um dos destaques do ano nos quadrinhos.
Logo em sua primeira edição, Morrison faz questão de deixar claro que as várias referências explícitas nas páginas de ''Joe the Barbarian'' vêm diretamente do que vem sendo consumido pelos jovens nas últimas décadas da cultura pop mundial. Em entrevista, o escocês anunciou que sua minissérie seria uma mistura de ''Senhor dos Anéis'' com ''Esqueceram de Mim''.
No número um, Joe está indo para casa depois de mais um dia de decepções no colégio. Ele passa pelo cemitério para mais um de seus momentos solitários frente ao túmulo do pai e depois entra em seu quarto, quase um universo paralelo diante da fria realidade. É ali que ele alimenta seus sonhos e, em um deles, delira com seus brinquedos.
Nessa realidade paralela - que pode ser fruto de alucinações devido à falta dos medicamentos para o combate à diabetes Tipo 1 -, o protagonista vê seu ratinho de estimação virar um hábil guerreiro e seus ''action figures'' de Batman, Comandos em Ação, Transformers, Dick Tracy, ganharem vida. Nesse universo, ele descobre ser parte de uma profecia: Joe torna-se ''Dying Boy'', que precisa lutar contra o ''King Death'' para salvar o mundo.
É aí que entra a habilidade de Morrison em conduzir uma história, que, apesar das inúmeras referências, consegue ter personalidade própria. O escritor explora bastante os conflitos de Joe, brincando com metáforas - como o fato do ''salvador'' no universo paralelo ter que se salvar na realidade, devido às crises de diabetes -, e também surpreendeendo, já que Morrison é também conhecido por não ter medo de enfrentar o lugar-comum da indústria. Para se ter uma ideia, é só ler ''Asilo Arkham'' ou notar que em recente fase do Batman ele especulou que os pais de Bruce Wayne promoviam sessões de orgias com drogas...
Bem, é verdade que grande parte do sucesso de ''Joe the Barbarian'' vem das habilidosas mãos do novaiorquino Sean Murphy, que já desenhou anual de ''Batman/Superman'' e ''Hellblazer'', gibi de John Constantine. A narrativa de Murphy é cinematográfica e seus planos usam referências fotográficas. O grande diferencial é que os traços minuciosos, com arte-final cartunesca, conseguem transformar tudo ao redor de Joe em personagens tão importantes quanto o próprio.
É de se destacar, por exemplo, a maneira como Murphy utiliza a arquitetura americana dos anos 70, como chalés de madeira e lareira, ao lado de referências oitentistas, a exemplo de tevês e videogames da época. O desenhista faz tudo isso com uma riqueza de detalhes que passaria batida em uma sequência no cinema, mas que torna a experiência da leitura dos quadrinhos ainda mais completa.
''Joe the Barbarian'' estreou em março, pelo selo adulto Vertigo, da DC Comics, e terá oito edições, com encerramento em outubro, nos Estados Unidos. Antes mesmo do término já estão agendados uma coletânea para fevereiro de 2011 e os direitos para uma adaptação cinematográfica foram vendidos para a Thunder Road Pictures, de olho em algo que misture ''Toy Story'' com ''Crônicas de Nárnia''. Ainda não há previsão de chegada do material no Brasil, mas, com o barulho que vem fazendo lá fora, logo deve estar nas prateleiras nacionais.


