Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
A música jobiniana está no ar. Gal Costa canta esta noite, no Guairão, em Curitiba, 23 músicas de Antonio Carlos Jobim, ou então, 23 clássicos no espetáculo ‘‘Gal Costa Canta Tom Jobim’’. Basta passar os olhos pelo repertório para ter noção das pérolas ali contidas. Começa com ‘‘Fotografia’’ e encerra com ‘‘Se Todos Fossem Iguais a Voc꒒. Entre a abertura e o final estão ‘‘Lígia’’, ‘‘Garota de Ipanema’’, ‘‘A Felicidade’’, ‘‘Estrada do Sol’’, ‘‘Desafinado’’, ‘‘Brigas Nunca Mais’’ e outras tantas.
Da lista, Tom assina sozinho seis canções. As 17 restantes vieram das parcerias com Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Newton Mendonça, Ray Gilbert, Dolores Duran. Com este material em mãos a cantora coloca sua voz e sua personalidade, numa releitura que tem a duração de 75 minutos. Gal já disse isso – ela imprime a marca pessoal naquilo que canta.
Subir ao palco e interpretar unicamente Tom Jobim. É um deleite e uma enorme responsabilidade para quem se habilita, mas no caso de Gal não há o que temer. Ela conta que de uma conversa em que Tom lhe disse: ‘‘Gal, os americanos adoram ouvir as minhas canções na sua voz, cantadas por você. Nós temos que fazer um disco juntos, nós temos que trabalhar.’’ O projeto não vingou, mas pela frente virá um CD com este tributo gravado ao vivo.
A montagem tem clima de recital, e a presença do diretor José Possi Neto contribui para dar mais peso à elegância e sobriedade do espetáculo. Afinal, tudo aquilo que ele assina carrega, no mínimo, elegância. Pela soma dos elementos, a alquimia é perfeita.
Gal e Tom, juntos no palco, foi raridade no Brasil. Ocorreu o oposto no exterior. ‘‘A minha imagem está muito ligada à imagem do Tom, exatamente pelo grande número de espetáculos que eu fiz com ele em Nova York, e temos até um vídeo gravado de um show que fizemos em Los Angeles’’, comenta a artista.
Cantar exclusivamente um único compositor não é novidade na carreira da baiana. Caymmi mereceu essa reverência, num tempo em que os intérpretes não se dedicavam a lançamentos temáticos, como acontece atualmente. Depois do belíssimo show – e disco – ‘‘Gal Tropical’’, no final dos anos 70, a cantora voltou-se para Ari Barroso. Fez o mesmo com Chico e Caetano. Chega agora a vez de Jobim.
‘‘Deveria fazer outros, porque acho que o papel do intérprete é esse: cantar os grandes compositores, fazer song books e realizar um trabalho sofisticado buscando suas identificações’’, opina a artista. Continua:
– Eu sou uma cantora que nasci da Bossa Nova, eu tenho total, radical influência da Bossa Nova, ou seja, identificação absoluta. Talvez eu seja a cantora certa para cantar as músicas de Bossa Nova, as canções de Tom Jobim, justamente por causa dessa essência, essa coisa que eu tenho, que foi influenciada por João Gilberto. Então estou fazendo um trabalho como sempre quis.
José Possi Neto, fã de Gal desde 1967, quando ouviu-a cantando com Caetano Veloso no disco ‘‘Domingo’’ (nesses tempos ela ainda se assinava Maria da Graça), confessa sua alegria quando recebeu o convite para trabalhar com sua ‘‘grande musa’’.
Ele coloca Gal no Olimpo nacional, onde estão entronizadas Elis Regina, Dalva de Oliveira, Maria Bethânia, Ângela Maria. Nesse páreo não há disputas nem comparações sobre quem tem a voz mais bonita ou qual a mais afinada. Essas mulheres estão lá ‘‘por causa de sua imagem, o seu comportamento, a sua postura, enquanto reflexo da alma brasileira’’, discorre o diretor.
A admiração não parte apenas dele. Gal afirma que entre eles havia ‘‘um namoro já de algum tempo’’. Entre outras qualidades ele tem a de saber ‘‘como lidar com o show business, sem perder a sofisticação, o bom gosto, a simplicidade de que eu gosto muito’’.
Estar correndo o Brasil com ‘‘Gal Costa Canta Tom Jobim’’ é um momento importante na vida da artista pela sofisticação do projeto. Ela se reconhece ‘‘uma grande cantora cantando a obra de um grande comnpositor’’. ‘‘Dentro do que hoje vive a cultura musical brasileira, ou seja, o que faz sucesso no Brasil, acho que só o fato de existir um espetáculo como esse, já é um alento, uma mensagem de esperança. Esse é o meu modo de ver.’’
‘‘Gal Costa Canta Tom Jobim’’, com Gal Costa, direção de José Possi Neto. Dia 28, às 21 horas, no Guairão. Ingressos: R$ 40,00 (platéia), R$ 35,00 (1º balcão), R$ 30,00 (2º balcão). Os bilhetes também podem ser adquiridos no Shopping Total, na Via Rápida do Portão. Não serão aceitos cheques.

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