Jobim com sotaque
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de janeiro de 1997
Thomas Pappon <br> Especial para Agência Estado 
O nono CD da série Red, Hot, iniciada em 1990 com a coletânea de gente famosa do pop (U2, Nenneh Cherry, K.D. Lang) reinterpretando músicas de Cole Porter, presta um tributo a Tom Jobim e à MPB dos anos 60 e 70. Ninguém cobra cachê e, com a doação dos direitos que cabem aos artistas, compositores, produtores, gravadoras e editoras, foram levantados, até hoje, US$ 6 milhões. Red, Hot - Rio focaliza o Brasil também em razão do elevado grau de disseminação da Aids no País, o terceiro do mundo em número de casos da doença.
Red, Hot - Rio reúne 17 canções, além de quatro vinhetas que mixam música e sons das ruas brasileiras. Abre com uma bossa instrumental esdrúxula composta e tocada por Money Mark, o tecladista dos Beastie Boys, seguida por uma versão para baixo e bateria de Corcovado, cantada num português horripilante por Tracey Thorn, do Everything but the Girl.
Deslize Na terceira faixa, o ponto mais baixo do CD: George Michael e Astrud Gilberto interpretam Desafinado, em português. Revelou-se a sua enorme ingracidão (sic), ele canta, com um arranjo de breguice imperdoável.
PM Dawn, com Flora Purim e Airto Moreira, tocam um house estranho, em ritmo 7/4, difícil de dançar. Também é difícil gostar do groove eletrônico que Ryuichi Sakamoto produziu para É Preciso Perdoar, cantada por Caetano Veloso e Cesaria Évora, caso se conheça a versão clássica com João Gilberto. Há também uma versão nada sutil de Águas de Março, com David Byrne e Marisa Monte, cheia de guitarras barulhentas e samplers, uma produção infeliz do competente Arto Lindsay.
Algumas das faixas são conhecidas: Tom Jobim e Sting em How Insensitive, e Maracatu Atômico, de Chico Science. Gilberto Gil apresenta uma Refazenda suave e encantadora e, em outra faixa, Cazuza canta, com Bebel Gilberto, numa demo-tape gravada, em 1986, em Petrópolis, uma versão crua de Preciso Dizer que Te Amo, conferindo uma nota cândida e tocante ao final do CD. A faixa escolhida para promover o CD foi The Boy From Ipanema, cantada por Crystal Waters, unindo batida disco e dance-music.


