Joaquin Phoenix, para o século 21
Ator está extraordinário como um personagem que transparece um passado pleno de tragédias
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de abril de 2019
Ator está extraordinário como um personagem que transparece um passado pleno de tragédias
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Uma informação para se ter sempre ao alcance durante a exibição de “Você Nunca Esteve Realmente Aqui”, lançamento nos cinemas da cidade, a partir de hoje: a violência é “a” protagonista do filme da inglesa Lynne Ramsey, que saiu de Cannes em 2017 com dois prêmios (roteiro e ator). Mas ela, a violência, na maioria das vezes está fora do campo de visão do espectador. Vale dizer, descobrimos as consequências das brutais e arrepiantes ações do personagem Joe (Joaquin Phoenix), os cadáveres ensanguentados, mas não a explicitude de suas mortes. As eleições estéticas e o engenho visual da diretora consegue que a representação da violência se diferencie claramente de outros filmes deste gênero.

Joe é ex-marine, veterano de guerra e ex-agente do FBI que no momento ganha a vida como ajudante de um detetive particular. Sua especialidade: libertar jovens mulheres sequestradas e exploradas sexualmente. Logo no início do filme, ele limpa sua arma de preferência, um martelo, e recolhe o dinheiro após uma missão bem sucedida. Em seguida volta para casa, onde vive com sua mãe (Judith Roberts), velha e doente. Além disso, este lobo solitário volta para cuidar das feridas. Ele não se permite ter amigos nem amantes. Sua alma e corpo enorme estão cheios delas, das cicatrizes, e nunca sabemos exatamente de onde procedem, mas com certeza de um mundo cruel e sem esperança. Ao redor dele, uma espiral de corrupção e vingança.
A proposta da diretora de “Precisamos Falar Sobre o Kevin” (lançado em Londrina há sete anos no mesmo Cine Com-Tour/UEL) é uma espécie de “Taxi Driver” passado simultaneamente pelo filtro de David Lynch e Nicolas Winding Refn (aquele de “Só Deus Perdoa”, não o de “Drive”). Apoiando-se na poderosa fotografia de Tom Townend, na inquietante música de Jonny “Radiohead” Greenwood e particularmente na estupenda interpretação de Joaquin Phoenix, Lynne Ramsay adaptou a novela 'noir' de Jonathan Ames a uma linguagem puramente cinematográfica. Quase nada se verbaliza, quase tudo se sugere, se aponta, se sublinha a partir de imagens, sons, montagem, luzes e sombras.
“Você Nunca Esteve Realmente Aqui” investiga os temas do abuso, da violência, do trauma e da corrupção inerentes a uma poderosa fatia da alta roda social. O filme redesenha a narração e a trama da novela negra de Jonathan Ames com o estilo característico da diretora Ramsay, sem alterar em nada seu brutal impacto. A habilidade dela consegue valorizar ao máximo o poder da fonte literária, e em outras mãos é muito provável que teríamos uma simples e convencional trama sobre vingança. O filme parece tão ousado e valente como surgiu o “Taxi Driver” de Scorsese há quase 50 anos, filme como o qual compartilha muitas semelhanças narrativas.
Incômodo e por vezes difícil de seguir, mas sem dúvida excepcional, o filme nos apresenta o retrato tridimensional de um personagem complexo, conflagrado pela loucura, pela tristeza e pela aceitação quase sempre impossível. Um recorte doloroso de nossa natureza.
E precisamos falar sobre Joaquin Phoenix. Uma interpretação extraordinária que joga com o niilismo e a absoluta falta de esperança. Ele domina tudo com a presença silenciosa de um homem que perdeu tudo e não sabe que quer recuperar. E somente reage. As ações de Joe são motivadas pelo desespero e a falta de consequências. Mas Phoenix imprime um selo com um significado profundo de combustão. Sabemos que Joe é assim porque sua vida o levou de roldão. E mesmo que Ramsay não dedique nada de metragem para mostrar isso, reconhecemos nele um passado pleno de tragédias.


