JOAQUIM NABUCO um humanista
Lilian Santos
Agência Estado
Os 150 anos do nascimento de Joaquim Nabuco, conhecido como Quincas, o Belo, marca a trajetória do mentor da abolição ao lado de José do Patrocínio. O monarquista de idéias liberais, descendente de uma tradicional família de senhores de engenho de Pernambuco, foi deputado, diplomata, orador, ensaísta, historiador, jornalista literário, conferencista - recebeu o título de honoris causa pela Universidade de Colúmbia mas, acima de tudo, um humanista, como descreveu o escritor Gilberto Freyre.
Entre suas grandes obras estão: O Abolicionismo, escrita na sua juventude, mostra uma síntese do pensamento abolicionista de Nabuco, e a autobiografia Minha Formação. Porém, a maior obra da historiografia brasileira foi escrita por Nabuco quatro anos depois da proclamação da República: Um Estadista do Império, biografia de seu pai, o político e jurista José Tomás Nabuco de Araújo (1813- 1878). Foi lançada em 1897 e reeditada quatro vezes em 1936, 1949, 1975 e 1998, na comemoração de seu centenário pela editora Topbooks.
A obra é uma análise minuciosa da política brasileira durante o Segundo Reinado e é também o testemunho de quem viveu essa política por dentro, ponderou o historiador Fernando Navarro, da Universidade de São Paulo, e peça obrigatória aos que aspiram abraçar a carreira política, como publicou Octaciano Nogueira, professor de História da Universidade de Brasília.
Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu em 19 de agosto de 1849 num sobrado na Rua do Aterro da Boa Vista, atual Rua da Imperatriz Tereza Cristina, no Recife (PE). Filho do senador José Tomás Nabuco de Araújo e Ana Benigna de Sá Barreto, teve como padrinhos os senhores do Engenho Massangana, Joaquim Aurélio Pereira de Carvalho e Ana Rosa Falcão de Carvalho, com quem passou a infância até os 8 anos, época em que teve contato direto com a escravidão, enquanto seus pais viajavam pela Corte.
Após a morte de sua madrinha em 1857, Nabuco foi morar com os pais no Rio de Janeiro. Onze anos mais tarde, iniciou os estudos de Direito na Faculdade de São Paulo, onde destacou-se como orador atacando a impunidade como um dos males do País. Ele defendia uma justiça eficiente, que tratasse ricos e pobres em condições de igualdade.
Em 1869 transferiu-se para a Faculdade de Direito do Recife, onde formou-se e ingressou no Partido Liberal, o qual pertencera a seu pai. Em dez anos (1878 - 1888), cumpriu três mandatos parlamentares, tempo em que escandalizava a sociedade pregando o fim da escravidão, o direito ao voto aos analfabetos, as eleições diretas, encampando a proposta de reforma agrária defendida por seu amigo André Rebouças, um engenheiro negro e militante abolicionista.
Nesse período, Nabuco fundou a Sociedade Brasileira contra a Escravidão e chegou a propor, em 1880, a extinção dos títulos de nobreza, tentando convencer Dom Pedro II a introduzir as reformas federalistas, que poderiam ter sido a tábua de salvação do Império.
Durante esse período, Nabuco escreveu outro marco da história brasileira O Abolicionismo, obra impressa por ele mesmo em Londres em 1883, que ficou inédita no Brasil até 1988, quando foi publicada pela Fundação Joaquim Nabuco.
Uma das grandes personalidades históricas do Império, Nabuco dedicou mais de 40 anos de sua vida à agitação política e à diplomacia. Fundou com Machado de Assis a Academia Brasileira de Letras, em 1887, onde exercia o cargo de secretário. Decepcionado com as promessas da República, proclamada em 1889, onde via atuando duas forças retrógradas no Brasil: o militarismo e o clericalismo, Nabuco se fechou em seu gabinete para idealizar o passado imperial debatido por seu pai criando o Um Estadista do Império.
Durante dez anos Nabuco rejeitou os convites para colaborar com o novo regime, continuando monarquista por convicção. Só cedeu aos apelos republicanos por amor a pátria, como escreveu o professor Octaciano Nogueira. Teve participação direta na disputa das fronteiras com a Guiana Inglesa, atendendo um pedido do presidente Campo Salles. Foi doutrinário do pan-americanismo e embaixador em Washington (EUA), em 1905. Cinco anos antes, em 1900, já transformado em pai da pátria, publicou a autobiografia Minha Formação. No fim da vida, passou por profunda crise religiosa, que o levou de volta ao catolicismo tradicional, abandonado na juventude. Morreu em Washington em 1910, aos 61 anos de idade, deixando além de outras obras importantes, Camões e Lusíadas, escrita em 1872.





