João Machado, o contador de histórias
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Existem coisas que não nasceram para ficar juntas nunca. Um instmo, o amor, é capaz de estar entre esses dois mares e completar o que falta à união. Sobre essa porção de terra, o cineasta, roteirista, autor de peças teatrais e artista plástico, João Machado, olha o horizonte, que não acaba nunca em sua obra.
''Filhos de Saturno'' (2006), longa-metragem dirigido por Machado, que venceu na categoria Melhor Filme do Atlanta Underground Film Festival, compõe essa geografia acidentada na obra do artista, que transforma em arte uniões improváveis. Foi assim que ele produziu o longa premiado a custo zero, reunindo todo o acervo visual da família - João Machado é filho do artista plástico Juarez Machado.
''Passei o rodo em tudo que encontrei, desde fotos de 15 anos da minha prima, gravações em super 8. Tudo sem preconceito. A partir do material construi uma história de ficção ilustrada com as imagens da minha família. Saiu muito melhor do que imaginava. É como uma colagem. É o mesmo que pegar duas coisas que, originalmente não nasceram para ficar juntas. Um casamento improvável, mas interessante'', afirma Machado, que até dia 5 de setembro apresenta a exposição ''Maps'', na Galeria Bahiarte, em Londrina.
Para Machado, cinema é a arte do tempo, tendo dele a propriedade de ser intangível. ''Isso me faz falta. É algo esquizofrênico. Apesar de gostar de várias vertentes do cinema, eu tenho vontade de ter o que tocar. Você tem a lata de filme, o que não é nada. A estréia de um filme é mágica. O homem voltou do fogo contando histórias na parede da caverna. Isso já era cinema. O cintilar do fogo já era cinema, mas acompanhar a platéia reunida, olhando na mesma direção e você sendo o responsável é incrível'', destaca o artista, que também teve o longa ''The Champagne Club'' (2001) premiado como Melhor Filme no Seattle Underground Film Festival e Prêmio Melhor Fotografia no Tribeca's Indievision Film Festival.
Internacionalmente, Machado não é reconhecido como um artista brasileiro. Ele deixou o Brasil muito cedo, aos oito anos de idade. Em Paris, Machado conta que morou perto de um cinema cult, frequentando as sessões proibidas. ''Era um cinema que tinha uma tendência para coisas mais pesados, como 'Império dos Sentidos'. Coisas que não eram para ver naquela idade, mas que me amadureceram, ajudando a ter um certo tipo de pensando. Devo isso aos meus pais. Para mim, humor era algo menor até levar umas porradas da vida. Vi que para suportar a vida, o humor é fundamental'', comenta Machado também sobre os textos que escreve para teatro, como ''O Último Bolero'', com participação de Francisco Cuoco no elenco.
Humor testado também como co-roteirista do seriado ''Os Normais'', da Rede Globo, por três meses, deixando o projeto para encaminhar a carreira como cineasta. Metódico, Machado diz que não é daqueles autores que batem a cabeça para escrever, mantendo uma disciplina de horários para se dedicar aos textos. ''Essa disciplina aprendi com o meu pai. A gente é muito amigo. Muito próximo. Existe sim aquela coisa de perguntar o que ele acha, mas, somente no estágio das idéias. Tenho orgulho do nome que carrego, mas procuro viver as minhas próprias conquistas. Isso nunca foi problema para mim. É uma inspiração'', ressalta o artista.
A geografia acidentada na obra de Machado tem um jardim secreto que resolveu mostrar: ''As artes plásticas para mim não eram uma necessidade. Quando algo é tão prazeroso assim, não sentimos a necessidade de mostrar. Porém, há uns quatro ou cinco anos, começou haver interesse de realizar exposições, mas cinema sempre consumiu grande parte da minha vida'', completa.
A exemplo dos sets de filmagem, Machado, nas artes plásticas também pretende ser um contador de histórias. No Centro Georges Pompidou, ele expõe uma espécie de fotonovela, que tem a mesma intenção de contar histórias, como na exposição ''Maps''. Trabalho minuncioso em que recorta os mapas com a utilização de bisturi e lupa, Machado também incluiu na exposição algumas esculturas de ossos de baleia. ''Tanto nos ossos, como mapas vejo outra imagem que é a do deslocamento. É como a fotografia de Henri Cartier-Bresson: um momento'', comenta o artista.
Ele conta que, durante 20 anos, um pescador de Florianópolis recolheu os ossos na praia. Machado se tornou amigo dele. Um dia, o pescador deu os ossos ao artista, dizendo que saberia o que fazer com eles. Machado, olha com respeito para os ossos transformados em esculturas. Restos centenários, que ressuscitaram entre dois mares diferentes - o pescador e o artista - unidos por um istmo de amor à arte.


